atómica maio de 2026 | Page 30

Ilustração © António Rodrigues

MULHERES NA CIÊNCIA

Beatriz Oliveira, Maria Valentim e Sónia Ferreira

Ao longo da história, desde a Grécia e Roma antigas, tantas vezes celebradas como berços do pensamento racional, até ao Iluminismo europeu, que promoveu a ciência e a razão como guias da sociedade, a ideia de que as mulheres seriam intelectualmente inferiores aos homens persistiu com uma surpreendente resistência. No século XIX, essa visão encontrou até suporte em discursos apresentados como cientificamente rigorosos. No seu livro “O Polegar do Panda”, Stephen Jay Gould recorda como alguns antropólogos ligados a Paul Broca utilizavam medições de crânios para sustentar hierarquias de inteligência. Entre as afirmações produzidas nesse contexto, encontram-se comparações chocantes, que aproximavam mulheres (e também pessoas negras) de primatas não humanos. A este propósito, escreve um dos discípulos de Broca: “muitas mulheres […] têm cérebros mais próximos dos gorilas do que dos homens mais desenvolvidos.”, mostrando como os preconceitos sociais podiam infiltrar-se na prática científica.

Hoje, estes exemplos são frequentemente citados como advertência: a ciência não é imune ao contexto cultural em que se desenvolve. No entanto, também ajudam a enquadrar um outro lado da história - o das mulheres que, apesar de excluídas, ignoradas ou subvalorizadas, contribuíram de forma decisiva para o avanço do conhecimento. É nesse percurso, muitas vezes feito contra as expectativas do seu tempo, que se inscrevem as figuras de que vamos falar neste artigo, cujo contributo acabou por falar mais alto do que as ideias preconcebidas da época.

Comecemos por Mary Anning, que desenvolveu o seu trabalho no início do século XIX e é hoje reconhecida como uma pioneira da paleontologia, embora durante muito tempo tenha trabalhado nas sombras, por ser mulher e não ter formação académica formal. Desde muito jovem, Anning percorreu a costa de Lyme Regis, à procura de fósseis. Foi assim que descobriu alguns dos primeiros esqueletos completos de ictiossauros e plesiossauros, achados que se tornariam cruciais para a compreensão da história da vida na Terra.

Apesar de vender muitos desses fósseis para sobreviver, a sua contribuição científica foi enorme. Os geólogos da época estudavam e publicavam os achados, frequentemente recebendo o crédito que caberia a Anning, mas eram as suas observações rigorosas, o seu conhecimento do terreno e a sua paciência em reconstruir os fósseis que permitiam interpretações corretas e detalhadas. A precisão do seu trabalho ajudou a lançar as bases da paleontologia moderna e a abrir caminho para a teoria da evolução, fornecendo provas concretas de espécies extintas e da diversidade da vida pré-histórica.

Ainda no domínio da Geologia, a teoria da Tectónica de Placas, desenvolvida na década de 60 do século XX e que representa a base da Geologia moderna, deve muito a Marie Tharp, geóloga e cartógrafa que, enquanto analisava dados de sonar do fundo do oceano Atlântico, começou a notar algo estranho: havia uma depressão contínua no meio da dorsal médio-atlântica, uma espécie de “vale” que se estendia por milhares de quilómetros. Identificou assim a existência de um vale de rifte contínuo na dorsal médio-atlântica. Ao cruzar essa informação com a distribuição de sismos, mostrou que o fundo oceânico era dinâmico, fornecendo evidências essenciais para a compreensão da expansão dos fundos oceânicos.

Apesar da importância do seu trabalho, Tharp não participou nas campanhas no mar com o seu colega Bruce Heezen, sendo afastada do trabalho de campo por ser mulher. Na época em que Marie Tharp começou a trabalhar (anos 1940–50), havia regras que impediam mulheres de participar em expedições científicas no mar. A ideia dominante era que navios de investigação eram “ambientes masculinos”, e a presença de mulheres “dava azar”.

Ainda assim, os seus mapas foram decisivos para a consolidação da Tectónica de Placas. E, embora Harry Hess seja frequentemente associado à formulação da teoria da expansão dos fundos oceânicos, persiste a história de que terá contactado com as ideias de Tharp numa palestra, antes de lhes acrescentar o mecanismo das correntes de convecção. Mais uma vez, importa lembrar que o reconhecimento científico nem sempre acompanha quem primeiro traça o caminho.

Na área da saúde, o contributo das mulheres foi fundamental para o avanço do bem-estar da sociedade. Muitas estiveram na origem de descobertas importantes em diferentes domínios. Recordemos dois exemplos: Rosalind Franklin, que contribuiu para a compreensão da estrutura do ADN, e, mais recentemente, Ann Tsukamoto, com um papel relevante na investigação em células estaminais e no tratamento de várias doenças.

Rosalind Franklin, cientista britânica, foi fundamental para a descoberta da estrutura do ADN, sendo responsável pela conhecida “Foto 51”, uma das primeiras imagens claras dessa estrutura. Ao longo da sua carreira, desenvolveu um grande interesse por técnicas de investigação avançadas, especialmente a cristalografia de raios X, uma técnica científica usada para determinar a forma e a organização de moléculas muito pequenas. Foi através desta técnica que Rosalind Franklin conseguiu obter imagens extremamente detalhadas de moléculas, incluindo o ADN. Apesar de ter dedicado grande parte do seu trabalho ao estudo da estrutura do ADN e de ter obtido dados fundamentais que apontavam para a forma em dupla hélice, o seu contributo não foi devidamente reconhecido na época. A famosa “Foto 51” foi partilhada sem o seu consentimento com outros cientistas, nomeadamente James Watson e Francis Crick, que utilizaram essa informação para desenvolver o modelo da dupla hélice e publicar os seus próprios resultados. Em 1962, James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins receberam o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina pela descoberta da estrutura do ADN. Nessa altura, Rosalind Franklin já tinha falecido. Ainda assim, o seu nome não foi devidamente destacado nos trabalhos iniciais, o que gerou críticas e levou, mais tarde, ao reconhecimento da importância decisiva do seu contributo para esta descoberta.