atómica maio de 2026 | Page 19

Maria: O que é o voo parabólico?

Miguel: É operado num avião A320 que pertenceu à força aérea alemã e que agora está na ZeroG, uma empresa que faz estes voos parabólicos. Neste avião são realizados os treinos para os astronautas que possivelmente irão a futuras missões espaciais. O avião levanta até mais ou menos 65 mil pés de altitude e depois realiza parábolas, que são subidas e descidas consecutivas. No nosso caso foram 16, 16 vezes que subiu e desceu, e o que acontece é que o avião se inclina para cima, vai-se ouvindo os graus de inclinação, “twenty” “thirty”, até “pull up”, que é quando está mesmo a noventa graus, ou seja, o nariz está literalmente apontado para cima. É nesse momento que se sente a hipergravidade, 2G, sobre o nosso corpo. E depois de subirmos durante cerca de 45 a 50 segundos, os motores do avião são desligados e o avião começa então a fazer a sua descida em queda livre, e é essa queda livre que faz com que nós venhamos a sentir a microgravidade a bordo, porque estamos a acelerar para o chão com a mesma aceleração da gravidade, mas não vou dar aqui uma aula de Física para não ser secante.

Maria: Durante todo o processo, a seleção, o treino e o voo, de que mais gostou?

Miguel: O nosso treino foi de 4 dias, digamos assim, foi muito bom ouvir a experiência do Andreas Mogensen, o primeiro astronauta dinamarquês, que esteve na Estacão Espacial Internacional, lançou o seu filme connosco lá, e falou um pouco da sua experiência. Estar também com o Jean-François Clervoy, que é um astronauta francês e norte-americano, que também já foi em três missões espaciais e que já tem de facto muita experiência neste campo. É agora coordenador da ZeroG e deste tipo de voos parabólicos. Por isso ouvir a experiência deles foi algo fascinante e muito motivador. na parte de treino mais propiamente dito foram bastantes palestras sobre os comportamentos que devíamos adotar durante voo, o que é que nos devíamos fazer enquanto embaixadores do projeto, e essa parte temos que admitir que é um pouco secante mas pronto. mas se vocês participarem vão depois ter oportunidade de ouvir o Pedro, a Adelina, a Marta, tudo pessoas incríveis que vão explicar tudo isto em pormenor. mas que de facto ouvir durante uma hora e meia é um pouco secante, embora que seja melhor que as aulas da escola prometo. e depois temos também a parte de treinos físicos, no nosso ano foi um pouco mais leve, mas nos outros anos houve mesmo treino militar, nunca se sabe o que é que nós vamos encontrar nenhuma edição é igual à edição anterior. mas nós fomos abandonados no meio da floresta, sim, foi uma experiência de peddy paper com algo que os astronautas também fazem, mas em ambientes muito mais severos como na Sibéria ou na Antártida para estarem habituados a situações de climas extremos. nós fizemos numa das florestas da Ilha de Santa Maria, fomos lá deixados apenas com uma bússola e com um mapa e tivemos que encontrar o caminho de saída. É giro porque, primeiro estamos em equipa e depois é passar aquela mensagem de onde vai um vão todos, este sistema de termos de trabalhar em equipa porque se não trabalharmos em equipa para cumprimos as tarefas não conseguimos chegar ao final.

Maria: Durante os momentos de microgravidade o que fez?

Miguel: As diferentes parábolas serviram para diferentes coisas. Havia parábolas livres, em que minha grande missão foi tentar fazer uma cambalhota, mas haviam também momentos onde nós realizávamos experiências, por exemplo de rebentar balões com água para se ver as bolas de água que se formavam em ambientes de microgravidade. tivemos também oportunidade de beber água como os astronautas bebem, vimos também a gravidade da Lua e de Marte de mais ou menos 0,16G para a lua e 0,36G daquilo que é a força da Terra, e tivemos oportunidade de fazer flexões, digo que é muito mais fácil, na gravidade de Marte faço 100 à vontade, passávamos os testes físicos com distinção se fosse com a gravidade de Marte. Tivemos oportunidade de fazer várias experiências, tivemos vários professores de Física também connosco. O Andreas Mogensen e o Jean-François Clervoy estiveram connosco a bordo, também a equipa de ZeroG, fizemos diferentes experiências e também as parábolas livres que serviram para estas brincadeiras das cambalhotas, andar com os pés no teto.

Maria: Existe algum momento engraçado ou inesperado durante todo o processo?

Miguel: Vários, pergunta difícil, que momentos inesperados? Fomos muito preparados para todas as reações que pudéssemos ter no voo, vómitos náuseas, aquilo que aconteceu é que uma das minhas colegas, a Ana, ela não vai levar a mal que eu confidencie isto, acabou por tomar dois comprimidos porque disse que era melhor tomar dois comprimidos para as náuseas, pois tinha quase a certeza de que ia enjoar, e com dois comprimidos já não, mas a verdade é que foi a primeira a ter vómitos e foi quem mais sofreu com os vómitos durante o voo. Acabou por ser uma situação um pouco caricata, mas ao longo da nossa viagem toda, surgiram bastantes situações de que nos vamos para sempre recordar.

A entrada para o avião da ZeroG.