«Num buraco no chão vivia um hobbit.» Assim tem início um dos mais famosos livros do século XX, O Hobbit, da autoria do escritor britânico J.R.R. Tolkien.
Mas o que é um hobbit? Trata-se de uma criatura do imaginário fantástico da Terra Média com aspeto humano, mas de baixa estatura, em média com cerca de um metro de altura. Tanto quanto Tolkien sabia, os hobbits não existem, nem nunca existiram, na nossa realidade. Porém, em 2003, na ilha de Flores, na Indonésia, foi feita uma descoberta surpreendente.
Na gruta de Liang Bua uma equipa de arqueólogos encontrou as ossadas de um hominídeo adulto de baixa estatura, com um metro de altura, foi posteriormente identificado como LB1. Esta nova espécie de hominídeo ficou conhecida popularmente como os hobbits da ilha de Flores.
O Homo floresiensis, nome científico do nosso hobbit, foi dado a conhecer ao mundo num artigo publicado na revista Nature em 2004. As primeiras ossadas encontradas pertenciam a uma fêmea, carinhosamente apelidada de "Flo", falecida com cerca de 30 anos, com aproximadamente 25kg e que terá vivido entre 100 e 60 mil anos atrás. Na mesma gruta, nos anos seguintes, foram encontrados os restos mortais pertencentes a outros 14 indivíduos. Em 2014 foram ainda descobertos vestígios desta espécie numa outra localização na ilha de Flores datados de há 700 mil anos.
Os indivíduos daquele grupo apresentam características físicas que levantaram muitas questões aos investigadores, causando grandes dificuldades de classificação.
Com uma combinação intrigante de características, as análises morfológicas e morfométricas do Homo floresiensis não resolveram conclusivamente a controvérsia sobre a posição da espécie na evolução humana.
O debate tem sido intenso e centra-se em duas hipóteses concorrentes: o Homo floresiensis surgiu de um hominídeo primitivo, ou de um humano moderno.
Além da sua estatura pequena, pés grandes e chatos, o Homo floresiensis revelou outras características físicas diferentes das dos humanos modernos e mais próximas dos Australopitecos. Entre elas, um crânio minúsculo, arcadas supraciliares salientes e sem queixo proeminente. Comparativamente, o Homo sapiens possui uma caixa craniana alta e arredondada, um rosto pequeno com sobrancelhas pequenas e separadas e ainda um queixo na mandíbula inferior. Também os quadris e ombros largos do Homo floresiensis, diferem do corpo relativamente estreito da nossa espécie.
Os Australopitecos representam um ramo mais antigo dos hominídeos – a “árvore genealógica” à qual pertencem os humanos modernos, espécies humanas extintas e todos os nossos ancestrais imediatos. Assim, a existência de características físicas semelhantes entre os Australopitecos e o Homo floresiensis sugerem que ele evoluiu de um ancestral muito mais antigo e menor que o Homo erectus.
Por outro lado, o formato do crânio e os dentes pós-caninos menores que o Homo floresiensis apresenta, seriam consistentes com sua ascendência como um parente do Homo erectus.
Também sobre a estatura do Homo floresiensis surgiram diversas teorias.
Uma delas considera que os hobbits descendem de um pequeno grupo do Homo erectus asiático, ou "Homem de Java", que apresentava altura semelhante à dos humanos modernos e terá sofrido uma redução drástica do tamanho do corpo durante um período de cerca de 300 mil anos. Este caso é um exemplo de nanismo insular, processo em que a redução de tamanho corporal permite uma adaptação à vida numa ilha, onde os recursos são limitados.
Outros especialistas argumentaram que os ossos pertenciam a um humano moderno com patologias, nomeadamente Síndrome de Down ou distúrbios de crescimento como a microcefalia, o que condicionaria a existência de uma cabeça anormalmente pequena, um corpo pequeno e algum comprometimento cognitivo.