Mudar a cor do cabelo é uma prática comum e cada vez mais popular entre jovens e adultos. Para muitos, trata-se de uma forma de expressão, estilo ou até de disfarçar os primeiros cabelos brancos. No entanto, por detrás da transformação estética, existe uma série de processos químicos complexos que podem afetar a saúde do cabelo — e até do couro cabeludo.
Mas afinal, que é o cabelo?
A presença de cabelo/ pelo é uma das características que definem os mamíferos e este é considerado homólogo às escamas dos répteis e dos peixes e ainda às penas das aves. Com uma origem evolutiva comum nestes grupos, desempenham um papel fundamental na proteção contra microrganismos e radiação solar, sendo fundamentais para a sobrevivência das diferentes espécies ao longo dos tempos.
A estrutura principal do fio de cabelo é principalmente queratina, a mesma proteína encontrada na pele e nas unhas. É formada por 45,2% de carbono, 27,9% de oxigênio, 6,6% de hidrogênio, 15,1% de nitrogênio - que juntos formam os aminoácidos presentes na queratina e ainda 5,2% de enxofre.
Um adulto possui cerca de 5 milhões de pelos distribuídos desigualmente pelo corpo, sendo que o couro cabeludo conta com cerca de 150 mil fios.
É curioso verificar a disparidade da média de fios por cm2 (aos 40 anos) nas diferentes raças, (caucasianos 220/cm2 africanos150/cm2; asiáticos e hispânicos 170/cm2), embora convenha notar que estes valores podem variar devido a outros fatores como o género e o estilo de vida.
Estruturalmente, o cabelo divide-se em duas partes: a raiz e a haste. A raiz encontra-se no folículo piloso e estes estão presentes em todo o corpo, exceto nas palmas das mãos, nas plantas dos pés e nos lábios. Os folículos pilosos são considerados a parte “viva” do cabelo — e é dela que surge a haste, ou seja, a parte visível, composta por células mortas.
A haste é formada por três camadas principais: a medula, o córtex e a cutícula. É no córtex que se encontra a maior parte da melanina, o pigmento responsável pela cor natural do cabelo que depende da proporção e das quantidades de duas outras proteínas - eumelanina e feomelanina. A eumelanina é responsável pelos tons de cabelo castanho a preto, enquanto a feomelanina é responsável pelos tons de loiro dourado, gengibre e vermelho. A ausência de qualquer tipo de melanina produz cabelos brancos/grisalhos.
Coloração do cabelo
Há milhares de anos que se faz a coloração do cabelo recorrendo a plantas e minerais. Alguns desses agentes naturais contêm pigmentos (por exemplo, henna, cascas de nozes pretas), enquanto outros contêm agentes clareadores naturais ou causam reações que alteram a cor do cabelo (por exemplo, vinagre). Os pigmentos naturais geralmente funcionam revestindo a haste do cabelo com cor, e apesar de alguns corantes naturais persistirem após algumas lavagens, não são necessariamente mais seguros ou mais suaves do que as formulações modernas, até porque algumas pessoas são alérgicas aos seus componentes .
Existem dois grandes tipos de tintas capilares: oxidativas e não oxidativas.
As tintas oxidativas correspondem às tintas permanentes. Primeiro, descoloram a cor natural do cabelo com a ajuda de agentes oxidantes (como o peróxido de hidrogénio) e, em seguida, introduzem moléculas de cor que penetram profundamente no córtex, onde ocorre a oxidação que fixa a nova cor.
As tintas não oxidativas podem ser semipermanentes ou temporárias. Nas semipermanentes, os pigmentos penetram na cutícula, mas não atingem o córtex. Nas temporárias, os pigmentos apenas revestem a superfície do fio de cabelo, sem penetração.
Estas categorias diferenciam-se principalmente pela duração da cor, que está diretamente relacionada com a profundidade de penetração dos pigmentos: quanto mais superficial, mais rapidamente a cor desaparece com as lavagens.
Apesar de muito utilizadas, especialmente as tintas permanentes, estes produtos podem trazer consequências para o cabelo e para a saúde.
O uso frequente pode danificar a cutícula e o córtex, deixando o cabelo opaco, espigado e mais propenso à quebra. Além disso, certos ingredientes presentes nas fórmulas (como a para-fenilenodiamina) podem causar reações alérgicas, como comichão, vermelhidão e, em casos mais graves, dermatite de contacto.
Há ainda investigações que apontam para uma possível ligação entre a exposição prolongada a algumas substâncias químicas — como aminas aromáticas — e o aumento do risco de doenças como o cancro, sobretudo em profissionais que lidam diariamente com tintas, como cabeleireiros. No entanto, os dados continuam a ser inconclusivos em relação ao uso ocasional em casa.
A pele do couro cabeludo funciona como uma barreira imunológica natural. A aplicação constante de produtos agressivos pode enfraquecer esta proteção, favorecer irritações e, em casos mais extremos, contribuir para alterações celulares como a displasia.
Assim, ao pintarmos o cabelo, estamos a intervir quimicamente na cutícula e no córtex da haste capilar — mas os efeitos podem ir além da superfície. É por isso fundamental ler os rótulos, escolher tintas de qualidade e respeitar sempre os tempos e instruções de aplicação.◼️