atómica maio de 2025 | Page 37

1. Os leitores familiarizados com as aventuras de Tintim sabem que a frase de promoção dos álbuns é: “indicado para os jovens dos 7 aos 77 anos”. A mensagem seria, precisamente, a de que, na leitura das histórias do intrépido repórter, ninguém sairia traumatizado ou indiferente. Se tivéssemos 7, 8 ou 10 anos, podíamos mergulhar naquela banda desenhada, sem o preço de pesadelos noturnos; se contássemos 40 ou 60 anos, também não deixaríamos de encontrar, nas aventuras de Tintim, motivos de entretenimento e prazer.

Porém, esta abrangência etária constitui uma das exceções.

Todos temos consciência de que, nas estantes dos pais, quando éramos garotos, deparávamos com livros que se tinha o cuidado de que nos fossem inacessíveis, como as embalagens de certos medicamentos.  Não seria saudável lermos algumas obras antes de desenvolvermos a maturidade adequada.

Ora, ao contrário dos livros, que só uma elite comprava e, por isso, podiam ser facultados ou proibidos aos mais novos consoante a responsabilidade e o critério dos pais, no cinema, que foi desde sempre uma arte para as massas, a classificação por idades impôs-se muito cedo e com caráter universal. Quando o mais velho dos autores deste artigo era jovem, a classificação resumia-se a três categorias: os filmes para maiores de 6, os para maiores de 12 e os para maiores de 17. Por um lado, as categorias nem sempre acertavam: esse autor, o mais idoso, recorda-se bem de ter visto “Bambi”, considerado uma película infantil e, por isso, permitida a partir dos 6 anos, e ter ficado profundamente marcado (talvez para sempre!) pela morte da mãe da cria de gazela. Por outro lado, o incumprimento também não parecia recomendável: recorda-se igualmente de, aos 15 anos, ter querido passar por mais velho, pintando um leve bigode e empunhando um maço de tabaco, de forma a entrar na sala em que iam projetar um filme para maiores de 17 (“Ben-Hur”), e de desmaiar numa cena particularmente chocante.

Entretanto, a classificação alterou-se. Já não se limita a três categorias. Contudo, as nossas perguntas mantêm-se: a admissão consoante as idades tem razão de ser? Resulta de uma pesquisa científica? A que critérios obedece e, sobretudo, quais as consequências de, por exemplo, uma criança assistir a um filme com cenas de sexo, ou de terror?

2. Agora, no ponto de vista do autor mais jovem, existem atualmente muitas mais categorias, comparativamente com as de há uns anos: para maiores de 3, de 6, 12, 14, 16 e 18 anos. Mas, por outro lado, é hoje bastante mais fácil para uma criança conseguir ver filmes fora da categoria em que está inserida, através de canais como Hollywood, Star (substituta da gloriosa e lendária Fox), entre muitos outros, que a partir de certa hora passam filmes destinados aos espectadores mais velhos. Mas também o autor mais jovem tem histórias de que nunca se esquecerá: tinha 7 ou 8 anos e, durante um sábado à noite, um dos canais anteriormente referidos exibiu um filme para maiores de 16, o conhecido “Taken”, com Liam Neeson. Inicialmente, aparentava ser uma aventura com muita ação, mas como abordava assuntos relacionados com tráfico de jovens e droga, o espectador ficou traumatizado.  Agora, gostaria muito de rever o filme, mas durante todo esse tempo foi incapaz de pôr o “Taken” à frente dos seus olhos.

Ora, o que faz de um filme ser avaliado com uma certa classificação? Quem é o responsável por avaliar?

3. Quem define a classificação de um filme é, em Portugal, a Inspeção-Geral das Atividades Culturais, uma organização que pertence ao ministério da cultura português. E cada filme tem características que o levam a que se proponha uma certa classificação. Para M/3, crianças de 3 anos ou acima, devem ser filmes curtos, com mensagens simples de entender e que não causem terror; para M/6, o filme costuma conter fantasia explícita, pode conter violência, mas não direta, sempre com o objetivo de entreter e divertir o espectador; quanto à classificação M/12, as crianças de 12 anos devem, mesmo assim, estar acompanhados por adultos, pois podem ficar perturbadas; Para M/14 costumam ser filmes de drama, de ficção científica, e certos filmes de terror com comédia; Para M/16, os filmes tendem a conter, de forma exagerada, aspetos relacionados com sexualidade e violência, tanto física como psicológica: um dos exemplos mais conhecidos é do filme “Super Bad” (2007), uma comédia para adolescentes, do realizador Greg Mottola, produzida por Judd Apatow, conhecido pela icónica personagem Fogell, que cria uma identidade falsa, Mclovin. Este filme contém diversas piadas sexuais no decorrer da ação, à volta de um grupo de amigos, menores de idade (menos de 21 anos, nos Estados Unidos) tentando comprar álcool para uma festa; por fim, para M/18, filmes que podem conter sexo ou violência explícitos. Um dos exemplos mais conhecidos é o filme “SAW” (2004) de James Wan, onde acompanhamos dois homens presos, numa sala, por algemas nas pernas, enquanto o criador de um desafio, Jigsaw, realiza jogos mentais com os concorrentes, levando-os a cometer atos que possam provocar traumas. (Não nos alongamos mais, para não estragar a espantosa experiência deste filme.)

4. Que efeitos mentais pode causar a uma certa pessoa assistir a um filme avaliado para uma idade superior à sua?

Dependendo do filme, concretamente do género do filme, poderá provocar problemas em crianças, embora tenhamos de ter em conta o tipo de criança e a sua particular sensibilidade.

Os filmes de Terror podem causar, nos mais novos, medo de estarem sozinhos, ansiedade, problemas emocionais, comportamentais e psicológicos. Já filmes que apresentam conteúdo sexual normalizam comportamentos sexistas, de objetificação, de violência sexual, ou problemas de saúde mental, segundo a Unicef. Também existem filmes que podem causar crises existenciais pela abordagem, como o caso do filme “Matrix”, de Wachowskis, em que questiona se o que nós vivemos é real ou tudo não passa de uma simulação.

Também certos filmes com finais assustadores, arrepiantes, como o caso do filme “Seven”, com Brad Pitt, causam certamente pavor em crianças.

Esperamos ter trazido algo que mereça atenção: este tema tornou-se, hoje, crucial, pois com o desenvolvimento da tecnologia, ver um filme com muita frequência é comum, e não respeitar estas classificações etárias poderá perturbar as mentes mais jovens.◼️