atómica fevereiro de 2026 | Page 46

ENQUANTO SONHAMOS

André Soares, João Montenegro, Maria Moura e Sofia Cruz

Como será que os nossos cérebros funcionam enquanto sonhamos? Sabiam que existem diversos tipos de sono, como por exemplo, o sono REM?

Neste artigo iremos explorar algumas das teorias neurocientíficas associadas aos sonhos, explicar como funciona o sono REM e analisar os problemas que podem estar associados à sua desregulação.

O sono REM é a fase do sono em que ocorre o movimento rápido dos olhos (Rapid Eye Movement), apesar de estarmos a dormir. Este é também o estado em que surge a maioria dos sonhos vívidos.

Ao longo da noite, o nosso cérebro trabalha em ciclos, alternando entre o sono REM e o sono não-REM, aumentando progressivamente os períodos de REM em cada ciclo, ou seja, no início da noite duram alguns minutos e nas primeiras horas da manhã já podem chegar a durar mais do que uma hora.

Este comportamento cíclico depende da interação entre várias regiões do cérebro e do aumento e diminuição dos níveis de neurotransmissores como a serotonina, a dopamina, a norepinefrina e a acetilcolina. No sono REM os níveis desta última atingem um pico, estimulando certas partes do cérebro responsáveis pela visão, emoção e memória, contribuindo para os aspetos sensoriais e emocionais dos sonhos. Isto, enquanto os níveis de serotonina e norepinefrina diminuem, paralisando o corpo e reduzindo o controlo lógico.

Reunidas estas condições - atividade cerebral intensa num corpo paralisado - encontra-se o ambiente perfeito para sonhar.

Já todos ouvimos dizer que quando sonhamos o nosso cérebro está mais ativo do que quando estamos acordados. No entanto, há áreas que se “desligam”, como o córtex pré-frontal, zona responsável por nos fazer pensar de forma lógica, tomar decisões e ter consciência das nossas ações. Assim, quando sonhamos, aceitamos coisas como voar, falar com animais ou até estar em sítios surreais, como sendo normais, e só nos apercebemos da sua impossibilidade ao acordar, quando o córtex pré-frontal está novamente ativo.

Existem várias teorias neurocientíficas sobre a função dos sonhos e muitas encontram suporte em evidências neurofisiológicas e psicológicas. Vamos agora concentrar-nos em duas delas.

De acordo com a teoria do processamento emocional, que tem vindo a ganhar importância ao longo do tempo, os sonhos promovem um espaço seguro para o processamento de emoções, especialmente as negativas, podendo até diminuir a sua intensidade. Está demonstrado, através de técnicas de neuroimagem, que as regiões do cérebro envolvidas na codificação das memórias emocionais, amígdala e hipocampo, estão bastante ativas durante o sono REM. Ao reviver experiências emocionalmente mais intensas numa situação segura, o cérebro diminui a carga emocional e afetiva associada a essas memórias, contribuindo assim para uma regulação emocional.

Já outra teoria - a adaptativa - defende que os sonhos possibilitam ao cérebro ultrapassar problemas e preocupações num ambiente não constrangedor. Não os solucionando, este processo mental pode contribuir para nos adaptarmos, atuando com uma maior perspicácia e criatividade. Sugere ainda que os sonhos simulam situações de perigo e ensaiam mecanismos de defesa num contexto seguro.

Esta teoria, de que os sonhos servem como um “campo de testes” mental, também encontra evidências em estudos sobre a atividade cerebral durante o sono. Ao simular cenários mais intensos como por exemplo de perigo ou conflito, o cérebro ativa áreas responsáveis pela capacidade motora e pela resposta ao stress, sem que o corpo execute essas ações devido ao relaxamento muscular induzido pela acetilcolina. Este estado de paralisia é essencial para garantir a segurança durante o sono, evitando que as experiências oníricas (durante os sonhos) se traduzam em movimentos reais. Este fenómeno é controlado pelo tronco cerebral, que envia sinais à medula óssea durante o sono.

Assim, temos a oportunidade de praticar respostas a potenciais perigos sem as consequências do mundo real.

Os estudos efetuados também ajudam a perceber a origem de certas condições clínicas, relacionadas com o sono e com a função dos sonhos. Um exemplo disso é o distúrbio do comportamento do sono REM, no qual a paralisia esperada durante o sono falha, levando a movimentos repentinos e reações físicas durante os sonhos. Esta condição está diretamente ligada a doenças neurodegenerativas como o Parkinson. A doença de Parkinson resulta da redução dos níveis de dopamina, substância que funciona como um mensageiro químico cerebral nos centros que comandam os movimentos. Quando os seus níveis se reduzem, dá-se a morte das células cerebrais que a produzem. Tudo isto sugere que as redes neuronais que controlam o sono e o movimento estão intimamente ligadas.

A diminuição da qualidade e quantidade do sono, comum em muitas sociedades modernas, pode influenciar negativamente a capacidade do cérebro para processar as emoções de forma saudável. Assim, como a ausência do sono REM tem sido associada a problemas emocionais e maior vulnerabilidade ao stress, também a existência de ciclos REM desregulados, nos quais se verifica a alteração da qualidade do sono, geram condições como a depressão e a ansiedade e o consequente impacto na estabilidade emocional e cognitiva.

Outro aspeto interessante é a participação da neuroplasticidade durante o sono REM, ajudando na consolidação de aprendizagens e no reforço de ligações sinápticas (ligações entre os neurónios) formadas durante o quotidiano. Esta observação explica porque é que, após períodos de estudo ou treino intenso, a duração e intensidade do sono REM tende a aumentar.

Assim, os sonhos podem não ser apenas algo pessoal ou simbólico, mas também uma consequência da reorganização neuronal que ocorre enquanto o cérebro recolhe novas informações.

Vale notar que a compreensão científica dos sonhos continua a evoluir e que as duas teorias mencionadas - a emocional e a adaptativa - não são necessariamente incompatíveis. Ambas podem representar diferentes perspetivas de um mesmo fenómeno: o esforço do cérebro em manter o equilíbrio psicológico, cognitivo e fisiológico.

O sonho, longe de ser uma simples peça da imaginação, torna-se assim uma das expressões mais complexas e essenciais da atividade cerebral humana.