atómica fevereiro de 2026 | Page 34

ENIGMAS DO UNIVERSO ESCURO

Mariana Fernandes, Matilde Monteiro e Ricardo Domingues

Durante décadas, os buracos negros foram encarados como os os fins do universo: regiões onde a matéria, a energia e até o tempo pareciam desaparecer sem deixar rasto. Estes objetos extremos, previstos pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein, representam alguns dos maiores desafios da Física moderna, ao colocarem frente a frente a gravidade e a mecânica quântica.

 No entanto, investigações recentes sugerem que esta visão poderá estar incompleta: em vez de serem fins absolutos, os buracos negros poderão representar uma fase de transição, evoluindo para os chamados buracos brancos. Trata-se de estruturas teóricas que, em vez de absorverem tudo à sua volta, libertam matéria, energia e possivelmente tempo de volta para o universo. Se confirmada, esta ideia poderá transformar profundamente a nossa compreensão do espaço, do tempo e da própria evolução do cosmos.

 

De modo a compreendermos melhor os objetos com que estamos a lidar, vamos primeiro contextualizar:

 

O que são buracos negros?

 

Como já foi mencionado, os buracos negros são alguns dos objetos mais extremos do universo, caracterizados por uma gravidade tão intensa que nada consegue escapar à sua atração, nem mesmo a luz. Formam-se, na maioria dos casos, a partir do colapso de estrelas muito massivas no final do seu ciclo de vida e são descritos pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein (um conjunto de hipóteses que generaliza a relatividade especial e a lei da gravitação universal de Newton, fornecendo uma descrição unificada da gravidade como uma propriedade geométrica do espaço-tempo).

Uma das suas principais características é o horizonte de eventos, a fronteira que marca o ponto sem retorno: tudo o que o atravessa deixa de poder comunicar com o exterior. Segundo a relatividade, no interior do buraco negro encontra-se uma singularidade, uma região onde a densidade se torna infinita e as leis da física, tal como as conhecemos, deixam de ser válidas, revelando os limites das teorias atuais na descrição destes fenómenos extremos. É daí que surge uma das questões mais profundas da física moderna: se as leis atuais deixam de ser válidas em condições extremas, será legítimo assumir que a singularidade representa um fim absoluto? Ao incorporar efeitos da mecânica quântica, alguns modelos teóricos recentes sugerem que o colapso total do espaço e do tempo poderá ser evitado. Nesse cenário, o que antes era visto como um destino final transforma-se numa fase de transição, abrindo a possibilidade de que o interior de um buraco negro, ao invés duma singularidade, dê origem a um novo estado do espaço-tempo: o buraco branco.

Buracos brancos: a solução temporalmente invertida de Schwarzschild

Buracos brancos são regiões no espaço, meramente hipotéticas, com comportamento oposto aos buracos negros. Assim como nada escapa a um buraco negro, também nada entra num buraco branco. Num buraco negro, a geometria do espaço-tempo faz com que todos os “caminhos” possíveis levem ao interior do horizonte de eventos. Na solução inversa, correspondente a um buraco branco, os “caminhos” possíveis são apenas de saída — nada pode entrar.

O conceito de buraco branco surge em 1916, quando Karl Schwarzschild apresentou a primeira solução exata das equações da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. Embora essa solução seja sobretudo associada aos buracos negros, revela uma propriedade da teoria: as equações da gravidade são simétricas no tempo!

Essa simetria pode ser compreendida através de uma analogia simples: se um fenómeno for gravado e o vídeo for reproduzido ao contrário, as leis físicas que o descrevem continuam a ser válidas. De forma semelhante, um buraco branco pode ser interpretado como a versão invertida no tempo de um buraco negro.

Buracos negros em transição: o caminho para um buraco branco

Alguns modelos teóricos sugerem que, no interior de um buraco negro, a física clássica falha num ponto chamado singularidade. A mecânica quântica propõe uma solução: em vez de um “fim da física”, haveria um “salto quântico” que cria um buraco branco. Assim, a matéria que caiu no buraco negro poderia, teoricamente, ser libertada de forma organizada pelo buraco branco, completando uma espécie de transição do colapso para a expulsão.

É importante sublinhar que esta ideia é apenas teórica! Não há qualquer evidência observacional.

Limites da teoria: do matemático ao real

Embora as equações da Relatividade Geral permitam soluções invertidas no tempo, como os buracos brancos, a irreversibilidade do universo real faz com que apenas os buracos negros sejam fisicamente plausíveis. Seria como ver um copo partido reconstruir-se sozinho: apesar de não violar diretamente as leis matemáticas, é algo que não acontece espontaneamente na realidade. Ou seja, a matemática admite buracos brancos, mas a realidade do cosmos impede que eles existam.

O comportamento de um buraco branco também iria contra um princípio fundamental da física – o aumento da entropia (com o decorrer do tempo, há um crescimento do grau de desordem de um sistema). Sendo um buraco branco oposto a um buraco negro, expulsaria matéria e energia de forma organizada, o que seria equivalente a um baralho de cartas completamente baralhado sair sozinho de uma caixa perfeitamente ordenado.