atómica fevereiro de 2026 | Page 29

1 Não há quem não reconheça a monstruosa imagem de um ser muito alto, esverdeado, com cicatrizes, parafusos e um andar bizarramente desarticulado. Esta figura costuma ser ressuscitada, no Halloween, por crianças de toda a parte, nas suas incursões em busca de doces: vendem-se máscaras, fatos, sapatos do ser.

Mas se todas as pessoas reconhecem imediatamente o monstro, raras não cometem um erro de identificação: o de lhe chamarem Frankenstein. Quem esteja familiarizado com a narrativa original sabe que Victor Frankenstein  não é o nome da criatura, e sim o do cientista que lhe deu vida, compondo-a a partir de pedaços de cadáveres furtados a morgues e cemitérios.

Muita coisa haveria a dizer sobre este romance, escrito por Mary Shelley na sequência de uma aposta literária, ou de um concurso improvisado entre amigos que se haviam juntado numa casa, de onde quase nunca lhes apetecia sair, devido a um período de tempo anormalmente frio. Comprometeram-se, então, a escrever histórias de fantasmas, de que, depois, escolheriam a melhor. De facto, conceberam, não histórias de fantasmas, mas narrativas de terror. (Aliás, Frankenstein ou o Moderno Prometeu, que ficou para a posteridade e seria retomada, no cinema, com a inesquecível interpretação de Boris Karloff, encarnando a criatura sob o aspecto que hoje conhecemos, é muito mais do que uma história de terror: um autêntico tratado sobre a solidão, o sentir-se diferente, a ausência de laços, ainda frequentemente revisitado pelo cinema, seja através do riso ou do horror: não esqueçamos que, nos anos 70, o impagável Mel Brooks criou uma desconcertante paródia desta história, Young Frankenstein, em que Peter Boyle dava corpo a um hilariante monstro, secundado por Gene Wilder - como Doutor Frankenstein - e Marty Feldman, como seu ajudante; nem que Guillermo del Toro realizou, muito recentemente, a sua própria versão do romance: ele anda, pois, aí, pelas salas de cinema ou em streaming.)

A premissa da narrativa é a da possibilidade de se criar artificialmente vida. Ou seja, a ciência, que tanto, tão otimisticamente, prometeu no século XIX (e muito cumpriu nos séculos seguintes, por vezes ultrapassando fronteiras que talvez devessem ter sido mais ponderadas), conseguiria produzir vida em laboratório, sem os meios naturais, isto é, sem recurso ao espermatozoide e ao óvulo? E será assim tão lógico e evidente para a maioria das pessoas que, mesmo com a evolução e inovação constantes da ciência e tecnologia, seja impossível uma criatura como a de Frankenstein nascer?

Esta é a questão que aqui pomos e a que a nossa pesquisa procurará responder.