atómica fevereiro de 2026 | Page 14

Maria: Como aprende a identificar diferentes espécies de aves?

Frank: Passando tempo a fazer isto, não há outra maneira de aprender. Se vês uma ave no seu habitat, observas, ouves e percebes como voa, aprendes muito mais. Por exemplo, há duas espécies de andorinhas que temos aqui:  a andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica) e a andorinha-ruiva (Cecropis rufula). Parecem muito semelhantes e no ar, contra a luz, só são silhuetas.

No entanto, ao estudá-las, consigo dizer qual é qual pelo jeito como voam: uma desliza mais, a outra bate as asas um pouco mais rápido. É assim que se consegue distinguir uma da outra, mas isso só se aprende passando tempo no campo, pessoalmente. Não dá para aprender isto na internet.

Maria: Que conselho daria a alguém que está agora a começar?

Frank: Tem paciência. Não é como hoje, em que tudo nos é dado facilmente. A natureza é a natureza: se fores paciente, ela vem até ti e faz coisas à tua frente porque tu foste paciente. Tens de esperar, ouvir, observar, aprender - a paciência é o conselho mais importante.

Outro conselho é: mantém-te acordado. Porque às vezes estou num abrigo e tive uma noite difícil, e começo a adormecer… e se adormeceres, não vais ver nada.

Maria: Se só pudesse observar uma espécie de ave para o resto da vida, qual escolheria?

Frank: É uma escolha difícil, mas não me importava de observar papa-figos. Querem saber porquê? Mesmo sendo amarelos brilhantes, são muito bons a camuflar-se. Sobem ao topo das árvores e ficam bem no meio do maior aglomerado de folhas, e mal se conseguem ver. Mas, como passas tanto tempo à procura deles, acabas por ver muitas outras coisas.

Talvez o papa-figos, mas qualquer ave é incrível de observar. Quer dizer, elas conseguem voar! Já imaginaste poder voar? Que alegria!

 Os andorinhões (família Apodidae) são parecidos com as andorinhas e são fascinantes. Estas aves quase não pousam. Só pousam para pôr os ovos, e depois de saírem do ninho, voam durante três anos antes de pousarem outra vez. É impressionante, é incrível!

E os maçaricos e as nacejas (família Scolopacidae)? Quando migram, fazem-no do Alasca até à Nova Zelândia sem parar, de um lado do globo ao outro, sem descansar. Perdem metade do peso corporal e voam durante semanas sem parar.

Maria: Tem alguma história de uma “fotografia perfeita” que não correu como planeado?

Frank: Nada corre como planeado. A primeira coisa que aprendes é que “nenhum plano sobrevive ao contacto com o inimigo” - é um ditado militar, mas aplica-se perfeitamente às aves. Nenhum plano sobrevive ao contacto com uma espécie de ave, porque elas não vão fazer o que pensas, não vão estar onde pensas que estarão, não vão estar no sítio certo.

Por isso, cada fotografia que tiras, cada vez que vês uma ave, é sempre uma experiência nova. Levo pessoas aos campos, e já levei pessoas aos campos, em média, uma vez a cada duas semanas, durante 37 anos. Conheço os caminhos de cor, conheço mais agricultores nos campos, que ficam a 70 ou 80 km daqui, do que por perto, porque estou sempre a observar. Nunca me aborrece, nunca há uma única vez em que sinta que foi tempo perdido. Sempre há algo novo, algo diferente. Vês uma espécie e sabes que talvez nunca a voltes a ver, ou vês uma ave a fazer algo que não esperavas.

No ano passado, estava a conduzir e vi um saco de plástico no campo. Pensei: “Algum estúpido terá deixado aqui o saco” um saco grande preto mesmo ao lado da estrada. Olhei melhor e era um urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) sentado mesmo ali. Consegui tirar algumas das melhores fotos de sempre do urubu: parei o carro, a câmara estava no colo, cliquei pela janela - e estava lá! Normalmente nunca se vê isto. Se não tivesse prestado atenção, teria passado à frente, a pensar que era só um saco preto.

Maria: Existe algum destino de sonho onde adoraria ir observar aves?

Frank: O próximo destino… há tantos sítios de sonho. O mundo é fantástico e somos muito sortudos por viver no Ocidente: temos dinheiro, tecnologia e aviões, por isso hoje em dia podemos ir praticamente a qualquer lado. Não precisamos de passar semanas num barco. Quando eu era miúdo, ao voltar de África, íamos de barco e demorávamos meses. Hoje apanhas um avião e doze horas depois já estás a chegar a outro país. Somos mesmo sortudos.

Por isso, o próximo destino é sempre um destino de sonho. Este inverno vamos para o México, quero ir ao Peru, quero ir ao Chile, quero ir à Geórgia, quero ir aos Países Baixos, quero viajar pelo mundo, até à Nova Zelândia. O próximo destino é sempre o destino de sonho.