As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 89
fritar Dilma do que a lhe dar sustentação. Dizer que há problemas na relação de Dilma com a sociedade, o Congresso, os sindicatos, os prefeitos, os empresários, que é preciso mudar sua
comunicação e a gestão que faz dos programas governamentais,
é como dizer que o governo não funciona ou não tem legitimidade, e está a correr risco grave. Fala com voz grossa que se deve
“mobilizar a base social e política do governo”, mas parece jogar
a toalha ou sugerir que a paciência se esgotou. É como pedir
para que o PT providencie outro candidato para 2014. Lula
deve ter gostado. [02/07/2013]
Conversa para boi dormir
Como sempre, há uma distância entre propostas e intenções.
O PSDB saiu da toca e falou, pela voz de Aécio Neves. Tentou
mostrar iniciativa porque não quis deixar Dilma surfar sozinha
no terreno reformador. Foi um cálculo, dentre outros. O problema é que, ao fazer isso, o partido fez com que sua proposta ficasse atrelada à competição eleitoral: não se tratou de propor o
que seria melhor para o país, mas sim o que seria mais conveniente para o PSDB. Ou seja, não foi para valer.
Algumas coisas estavam até bem calibradas, como o fim das
coligações proporcionais e da 2ª suplência de senador. Outras
não estavam fundamentadas nem explicitadas, como é o caso do
sistema distrital misto, das cláusulas de barreira para os partidos
menores e da questão da divisão do tempo de propaganda gratuita na TV. E houve ainda a pior delas, essencialmente oportunista: o fim da reeleição com a extensão dos mandatos do Executivo para cinco anos, que só constou para prejudicar cálculos
adversários. Era uma proposta que navega livremente no paradoxo, na contradição e no eleitoralismo deslavado. Se, antes, o
PSDB defendeu a reeleição durante o governo FHC, agora ele
acha que a regra chegou ao esgotamento. Não por defeito da
regra, mas sim porque “o atual governo federal desmoralizou o
II. Depois de junho. Sobre as respostas governamentais
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