As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | 页面 75

A presidente foi ao discurso, portanto, naquela posição que se poderia chamar de defensiva, e sem ter muito que oferecer. Não teve sequer tempo para preparar propostas políticas, confiante de que o povo adorava o governo. Um mês atrás, comemorava altos índices de popularidade. Eles despencaram subitamente, mas os sinais de que isso poderia ocorrer deveriam ter sido captados pelos estrategistas do Planalto. Não foram. E a presidente foi ficando sem pé na realidade. Entregou-se então ao poder da comunicação, tentando ver se, com ele, compensava a perda de poder político. Não seria justo, portanto, esperar muita coisa do discurso. Mas há uma máxima em política que diz mais ou menos assim: se um governante não tem muito que oferecer, que ofereça então direitos. Adaptando, pode-se dizer que não tendo o que oferecer a presidente poderia ter oferecido perspectivas. E isso o discurso não fez. Primeiro porque a presidente personalizou tudo, passando uma imagem de ofendida, ainda que generosa. Repetiu várias “Eu estou ouvindo vocês”. Vestiu uma carapuça preocupante: as manifestações teriam sido contra seu governo, já que esse governo teria sido visto pelas pessoas como responsável. Ela olhou a Esplanada dos Ministérios e as massas nas portas do Planalto, mas falou para o país inteiro. Não compartilhou o problema com prefeitos e governadores. Até a ação policial foi vista como problema dela, numa guinada conservadora ruim para quem é de esquerda. Declarou que fará tudo para manter o país “dentro da lei e da ordem”, conclamando a população a agir pacificamente, “sem violência e arruaça”. Não poderia ter dito, por exemplo, que alguns governadores erraram por não terem traçado uma política eficiente para suas polícias? Não poderia ter dito que, em São Paulo por exemplo, a violência policial equivocada e mal calibrada ajudou a impulsionar muita gente para as ruas? II. Depois de junho. Sobre as respostas governamentais 73