As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Seite 64
comunicação e interação, poderão conhecer uma progressão.
Perderam pontos os candidatos com propostas e modelos desgastados de campanha, com promessas demagógicas ou imprecisas, com anúncios bombásticos de novos tempos, com atitudes
que anunciam coisas que ninguém conheceu jamais. Poderão
até permanecer em circulação, disputar e vencer as eleições, mas
não conseguirão ganhar a credibilidade adicional necessária
para fazer a diferença.
O Brasil ainda não construiu a democracia como modo de
vida e de organização social fundado na liberdade, na participação e na busca de igualdade social, no qual um Estado republicano cumpre funções reformadoras essenciais. Hoje, a democratização avança meio sem rumo, com uma derivação
“anárquica” promovida tanto pelas transformações ocorridas na
estrutura social (radicalização da modernidade), quanto pela
falência dos partidos políticos e das entidades associativas de representação. A sociedade que se democratiza pede muitas coisas
e não consegue se submeter nem aceitar as pautas mais rígidas e
pesadas do mundo sistêmico, organizado. O que virá pela frente
está inteiramente em aberto.
Recomposição e mesmice
A baixa das manifestações que desde junho sacudiram o país
foi previsível, mas surpreendeu pelo grau em que ocorreu. Com
isso, a política nacional voltou ao ritmo de sempre, como se o
alerta emitido pelas ruas tivesse esvanecido juntamente com as
forças que o determinaram. Aos poucos, o noticiário e as discussões revelaram o retorno do que tem sido a tônica da vida política: quedas de braço entre o Executivo e o Legislativo, nomeações e afastamentos, um virar de costas dos parlamentares para
a opinião pública, bate-bocas no Supremo Tribunal Federal à
sombra da revisão das penas do mensalão, denúncias de corrupção e esquemas ilícitos (o cartel paulista), tentativas de criação
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As ruas e a democracia