As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 52

gestão e de melhorias no atendimento básico. Não geram efeitos no curto prazo. Passam por um novo equacionamento dos gastos públicos e pela formulação de políticas claras e abrangentes. Nada disso, porém, mostra-se possível com o sistema político existente, que cobra alto preço dos governos em termos de concessões e coalizões e, ao mesmo tempo, força os partidos políticos a um jogo fisiológico que os descaracteriza. Melhor prova disso é que o governo Dilma Rousseff não consegue governar com o programa de seu partido e o PT não tem forças para se fazer presente de forma decisiva em seu governo. As falhas de governança ficaram mais evidentes no auge dos protestos. O governo anunciou cinco eixos de atuação – reforma política, saúde, educação, transportes públicos e responsabilidade fiscal –, mas não conseguiu propor nada de muito efetivo. Sua situação só não ficou pior porque as oposições, fiéis à sua condição subsidiária, mostraram-se totalmente sem condições de pressionar o governo e sem competência para formular projetos alternativos. 4. Ganha assim destaque a questão de saber se a politicidade das ruas pode se compor com a politicidade dos políticos e do Estado. O desencontro de discursos, narrativas e linguagens entre as ruas e o Estado se acentuou e está a exigir esforço de reflexão. A ativação de protestos mediante redes virtuais produz manifestações horizontais, multicêntricas, com muitas lideranças, sem organização sustentável, repletas de entusiasmo e contundência crítica. Traz consigo, porém, um problema de difícil resolução, referente à duração no tempo e à capacidade de estruturação de uma agenda. É um problema que cresce na medida em que o movimento reflui. O refluxo pode ser tão fugaz quanto a próxima mobilização ou se prolongar indefinidamente. Durante ele, continuam a existir “tarefas políticas” decisivas: estabelecimento de uma agenda de lutas, formas para fazer com que essa agenda chegue ao Estado, organização dos manifestantes, relacionamento com os poderes constitucionais, comunicação públi50 As ruas e a democracia