As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 44

que teria finalmente chegado a hora do Brasil mostrar seu valor e sua grandeza ao mundo. Assim, atraídos pelo grandiloquente e hiperbólico discurso oficial, a sociedade civil, os movimentos sociais e a opinião pública foram se acomodando ao ritmo governamental. As oposições, desorientadas e sem capacidade organizacional, recolheram-se à retórica e ao controle dos governos regionais. As vozes das ruas e das urnas de algum modo ecoavam as demandas sociais, mas não conseguiam inscrevê-las na agenda política. A conservação das estruturas da concentração de renda, da propriedade e do padrão econômico-social vigente piorou a situação. Aos poucos, a insatisfação e a decepção subiram de tom. E as redes sociais passaram a reverberá-las, projetando-as para as ruas. Cidades, redes e violência A sociedade brasileira mudou no correr das últimas décadas. Tornou-se mais dinâmica e mais diferenciada, com mais mobilidade social, novas culturas e novas expectativas. Passou a funcionar cada vez mais em rede. Os centros de poder entraram em crise, perderam transparência e força. O poder não está mais no Palácio do Planalto ou em algum outro palácio. Os partidos pesam pouco na organização de consensos sociais. Há uma revolução em marcha, mas ela não é a dos trabalhadores e a das classes médias. É uma revolução sem revolução, a sociedade ultrapassando o sistema político e pondo em xeque o que está instituído. O conflito social foi reconfigurado pela digitalização da vida e por modificações importantes ocorridas no mundo do trabalho. O Brasil tornou-se urbano. As cidades aumentaram em tamanho e em problemas. Converteram-se em barris de pólvora, ambientes em que tudo é difícil, oneroso e existencialmente pesado. Não foi por acaso que as manifestações de junho eclodiram nas 42 As ruas e a democracia