As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 36
ções e negociações políticas, tolerante com o jogo frio da política
e suave com o mercado e as grandes empresas. Especialmente
em decorrência do protagonismo de Lula (um autêntico líder de
massas) dentro e fora do partido, o PT adquiriu certa ambiguidade, combinando de modo nem sempre coerente o pragmatismo operacional com uma atitude dedicada a cortejar as massas
por fora das instituições representativas. Essa ambiguidade se
consolidou quando Lula foi eleito presidente em 2002. A partir
de então, forçado a organizar coalizões à direita para poder governar, o partido tornou-se um operador do velho jogo político
que antes condenava, perdeu vínculos com os movimentos sociais, distanciou-se da sociedade civil e mergulhou no paradoxo,
perdendo vigor e coerência programática.
O sistema político pôde se impor graças à manutenção das
regras eleitorais e partidárias, que fizeram com que a “governabilidade”, ou seja, a aprovação legislativa das políticas e propostas governamentais, ficasse sempre na dependência de grandes
coalizões parlamentares. Tal marca constitutiva do presidencialismo brasileiro tolheu coerência dos governos. Constrangidos
por consórcios multipartidários sem eixo programático e compostos de modo fisiológico, os governos assistiram à desconstrução de seus planos. Foi assim durante os anos de Fernando
Henrique Cardoso (1994-2002) e de Lula (2003-2010), bem
como no governo Dilma Rousseff.
O quadro de crise tem determinações amplas. Está associado
à manutenção de um modelo econômico que aparenta produzir
resultados em termos de crescimento, mas que não promove nenhuma expansão sustentável da economia e, sobretudo, prolonga as bases históricas da subordinação e da vulnerabilidade externa, da acumulação com baixas taxas de investimento e muito
voltada para o setor primário-exportador, do predomínio de
grandes grupos econômicos e, por extensão, da concentração da
renda e da riqueza. O que se evidenciou em junho, portanto,
não foi somente uma crise política, mas uma crise sistêmica, que
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