As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 26
Análises políticas totalizantes proliferam com mais facilidade
na vida política organizada, onde a correlação de forças ganha
materialidade e explicita sua lógica. Fora dela, preponderam visões especializadas, boas intenções, abnegação e ética da convicção, uma racionalidade específica. Se escasseiam os quadros
intelectuais, se os espaços de reflexão política e adensamento
cultural são pouco expressivos, se a democracia organizada não
funciona bem e os partidos deixaram de ser usinas de ideias e
valores, então a análise política respirará com dificuldade, confundindo-se com a vocalização midiática de solidariedades, o
cálculo eleitoral e a crônica jornalística.
Em junho de 2013, a hipermodernidade emergiu com
tudo nas ruas. Trouxe consigo uma nova politicidade, à margem de partidos e organizações e repleta de tendências “niilistas” pré-políticas. Não faz sentido romantizar os protestos,
vê-los como sendo o anúncio de uma democracia revitalizada e
ignorar que eles foram uma “terra de ninguém”, aberta ao protagonismo genérico de muitos grupos e indivíduos. As vozes da
revolta verbalizaram demandas reais, mas também muita intolerância e incompreensão. Disseram muitas coisas, mas não forneceram soluções. Despertaram consciências e tiraram a política da letargia, mas não anunciaram uma revolução.
É impossível saber se continuarão mobilizadas, mas pode-se
dizer que é improvável que cheguem muito longe, a ponto de
impor mudanças substantivas. As ruas brasileiras têm baixo poder de agenda: não se entendem sobre as razões que as ativaram
ou sobre os passos políticos que terão de ser dados. Mesmo assim, seu efeito positivo não pode ser desprezado. A vida política
não será mais a mesma, ainda que demore para mudar.
A agenda brasileira está posta. Não se trata somente de reforma política, ainda que a ela se deva dar lugar de destaque.
Afinal, o país necessita de outra política. A superação da ditadura nos anos 1980 não teve força para democratizar e ajustar as
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As ruas e a democracia