As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 199
circulação de informações e, nessa medida, facilita a que o debate público democrático possa transcorrer em condições de
maior igualdade e maior racionalidade argumentativa. “A liberdade de imprensa é um princípio inegociável, ele existe para beneficiar a sociedade democrática em sua dimensão civil e pública, não como prerrogativa de negócios sem limites na área da
mídia e das telecomunicações, em dimensões nacionais e transnacionais”. No projeto democrático, “a imprensa deve informar
a todos sem privilegiar os mais abastados, e também dar voz às
diversas correntes de opinião” (BUCCI, 2002, p. 12).
6. Há, porém, uma contrapartida nesse processo. Precisamente porque adquiriram enorme poder sobre a sociedade, os
meios de comunicação e seus protagonistas tenderam a se ver
como estando fora do alcance de qualquer regra ou controle.
A imprensa (a mídia) não está imunizada contra críticas, não paira acima do bem e do mal, e nem está sentada no pedestal da
verdade. Jornais e jornalistas erram, deformam, prejudicam e beneficiam. Podem ter relações ambíguas ou escusas com negócios,
partidos e governos. Devem estar, portanto, permanentemente ao
alcance da crítica democrática e das leis que sociedades e Estados
estabelecem para mediar as interações entre seus membros.
7. Numa situação de mercado intensivo, financeirização e
capitalismo globalizado, a grande mídia tende a atuar de forma
oligopólica. Articula múltiplos meios de comunicação (jornais,
revistas, rádios, TVs, blogs, portais, filmes, música) e se impõe
com poderosos mecanismos de controle sobre vasta gama de informações. Os grandes grupos, em pequeno número, controlam
a oferta e concorrem entre si não pelo preço que cobram, mas
pela “qualidade” do que oferecem. Tal concorrência pode transcorrer com maior serenidade ou mediante a exacerbação de espetáculos midiáticos (denúncias, escândalos, revelações bombásticas) em que o objetivo não é prestar um serviço mas
promover tomadas de posição e alinhamentos ideológicos. A
busca de sensacionalismo caminha muitas vezes junto com o
V. Mídia, democracia e hipermodernidade
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