As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 179
Estadistas andam escassos porque faltam talentos à política.
Hoje, por carecer de paixão e sentido e não dispor de molduras
institucionais coerentes, a política não está conseguindo selecionar lideranças. Virou uma profissão como outra qualquer.
São escassos, também, porque os governantes dos nossos dias
governam com bloqueios e limites complicados, que muitas
vezes os impedem de ter papel de relevo. E são escassos, por
fim, porque líderes e governantes não têm mais como cumprir
a função precípua de unir o povo e organizar um projeto de
sociedade. As sociedades da era capitalista global estão fragmentadas e individualizadas demais para que alguém, num
estalar de dedos, as articule e mobilize para um empreendimento coletivo sustentável.
No mínimo por isso, uma reforma política bem compreendida tornou-se elemento central da agenda democrática. Não
para moralizar a política, mas para dar outra substância a ela.
Não para cercear a ação dos políticos e atá-los com códigos de
conduta purificados, mas para criar condições para que os melhores dentre eles se projetem e dinamizem o sistema como um
todo. Não, em suma, para criar uma redoma de vidro na qual
fosse possível exibir uma política inteiramente transparente aos
olhos do público, mas para romper todas as redomas que separam o povo do Estado.
Quando, no auge dos protestos de junho de 2013, a presidente propôs que se fizesse uma reforma política, ela dialogou
com o eixo dos protestos e admitiu que havia de fato um problema de representação e legitimidade no país. Permitiu, porém,
que a proposta convergisse para o plano das regras eleitorais –
para o plano do sistema de votação (distrital, simples ou misto,
ou proporcional), das listas abertas ou fechadas, do financiamento de campanha. A ideia caiu no vazio porque não era a isso
que os manifestantes se referiam quando falavam contra a política. Uma reforma política para valer somente “fará sentido se
mostrar-se capaz de quebrar os mecanismos em curso. (...)
IV. Crise e reforma política
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