As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 173

volvendo banqueiros, empresários, delegados, políticos e funcionários públicos. Se mudarmos o foco e considerarmos as cenas recorrentes de violência policial, não somente durante a revolta de junho, mas no dia-a-dia, a facilidade com que se bate e mata, a lentidão judicial, a impunidade de tanta gente, o cenário de horror se configura plenamente. Pactos republicanos têm inegável dimensão simbólica. São celebrados para sugerir ou fundamentar uma estratégia de ação, atrair aliados e eventualmente direcionar algum movimento ou plano de ação. Há neles jogo de efeito e movimentos dedicados a promover “ajustes de contas” entre as instâncias superiores do Estado. Podem contribuir, por exemplo, para que se aparem arestas no interior da Polícia Federal ou se produzam melhorias nas relações entre o Executivo e o Legislativo. Podem se materializar em uma trincheira para que se defenda a supremacia do Estado Judicial sobre o Administrativo ou o Político, ou para que alguém exiba seu amor pelos ritos da Justiça. Coisas que, de resto, não seriam estranhas nessa época em que conflitos, tensões e divergências políticas transbordam a esfera política, são judicializados e caem no terreno do julgamento espetacular, tido como mais rigoroso e imparcial. Operações destinadas a defender uma República não podem se limitar ao protagonismo dos poderes. Um modo republicano de governar e organizar o Estado é aquele em que o interesse público se distingue dos interesses dos particulares, o direito e a lei preponderam e os cidadãos escolhem livremente seus dirigentes. Ele exige poderes alertas e legitimados, mas só faz sentido e sobrevive se contar com bons políticos e estiver embebido de cima a baixo de ativismo social e educação cívica. Possui virtude republicana uma comunidade que se organiza e se governa com instituições e hábitos públicos compreendidos e defendidos pelos cidadãos, que sabe valorizar a redução dos privilégios pessoais e das possibilidades de que um grupo ou classe se imponha sobre outros. IV. Crise e reforma política 171