As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 165

comunicação política como também ajudar a que os cidadãos escapem do controle unilateral dos poderosos locais, que costumam assediá-los quase sempre de forma não política. Nenhuma propaganda opera no vazio, apenas movida a “forma”. A comunicação política, se quiser ser democrática e criar vida coletiva, precisa apresentar aos cidadãos um discurso que lhes diga respeito e faça sentido, que dialogue com aquilo que é socialmente relevante e não somente com aquilo que interessa aos políticos ou ao sistema. Uma política aberta para a cidadania é mais que política dos políticos e mais também que política dos técnicos, com seu bom-mocismo e seu discurso hermético, obcecado pela “racionalidade” e pelos temas gerenciais. Além do mais, dado justamente o ambiente em que se vive, no qual prevalecem a poluição sonora e visual e a saturação midiática, a propaganda precisa encontrar um eixo que a destaque pela qualidade cívica, política. A mesmice a que temos sido expostos ao longo dos últimos anos nada produz de positivo. Virou uma espécie de sonífero, que não agrega valor à disputa política e somente consegue, quando muito, propor aos eleitores alguns rascunhos programáticos que não lhes educam nem os informam de modo suficiente. São programas perversos: chatos na forma e vazios no conteúdo. Se quisermos descobrir porque a propaganda eleitoral tem sido até agora inócua, bastaria ponderar que, diante de discursos que não lhe falam nem ao coração e nem à mente, que oscilam entre a autoglorificação, o radicalismo verbal abstrato e o tecnicismo gerencial, que exibem candidatos pífios e insossos, trucados, desencarnados de partidos ou correntes de ideias, o eleitor optará sempre pelo que já conhece. Portanto, em vez de criar condições para uma reflexão coletiva sobre o país e o mundo, a propaganda acaba por empurrar o eleitor para um conservadorismo defensivo e meio alienado. IV. Crise e reforma política 163