As ruas e a democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo | Page 160

igualará as condições de competição eleitoral. Listas fechadas podem implicar maior controle das cúpulas partidárias sobre os candidatos, afastando-os da sociedade. Medidas desse tipo fazem sentido maior ou menor conforme o sistema abrangente em que forem inscritas. Requerem estudos e análises, inclusive de risco. Apresentadas às pressas, encontraram forte rejeição no Congresso. E não empolgaram a sociedade. Um sistema abandonado A opinião pública brasileira tem-se mostrado indiferente ao sistema político e aos parlamentares, que são por ela vistos como representantes de si próprios, despreparados para exercer papel positivo na vida social, no controle dos atos dos governantes ou no processamento das demandas da população. Poucos eleitores sabem em quem votaram nas últimas eleições, quem foi eleito e em quem votarão na próxima ida às urnas. Mesmo os melhores deputados não parecem possuir força, vontade e articulação suficientes para dar às casas legislativas maior peso e relevância, nem para desfazer a imagem negativa que as cercam. Se levarmos em conta a complexidade dos problemas nacionais e as tensões que atravessam o cotidiano da população, é fácil perceber o prejuízo que se tem com essa situação, que despoja os brasileiros de uma instância confiável de representação política. O problema não se esgota numa suposta má qualidade dos representantes. Tem a ver com o conjunto do sistema e não pode ser compreendido fora dele. Expressa a resistência notável de uma cultura política de tipo clientelista e fisiológica que remonta aos tempos coloniais e se reproduz como vírus pelas frestas da condição hipermoderna em que passamos a viver, ajudando a dramatizá-la e sendo ao mesmo tempo turbinada por ela. Reflete a perda de eixo das instituições políticas em geral, que ficaram vazias de poder, pobres de imaginação e impotentes diante da força do mercado e da fragmentação social. Soltas no espaço. 158 As ruas e a democracia