Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 81
Artigo
Mulherio das Letras
Por Cris Estevão
Ilustração: Yanara Vieira
“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.”
D a necessidade de tomar nas mãos o que é nosso, surge o Mulhe-
rio das Letras, projeto que reune autoras, escritoras, editoras, ilustra-
doras, contadoras de histórias, jornalistas e produtoras de todo o país.
A ideia nasceu entre encontros despretensiosos, com conversas que
hora ou outra traziam a mesma pauta: onde estão as mulheres nas
Letras? Qual lugar está destinado a elas? Como e quando elas têm sido
publicadas?
É indiscutível que o espaço ocupado pelas mulheres na literatura
brasileira tem sido um campo de batalha. A prova disso não está ape-
nas na nossa presença nas academias literárias ou nas pomposas pre-
miações. A prova disso está nas ementas de curso (inclusive o de Le-
tras), nas listas de obras literárias escolhidas pelas escolas anualmen-
te, no número de autoras que você consegue lembrar de cabeça nos
próximos dez segundos.
Com intuito de disputar um cenário antes, predominantemente,
masculino, o evento propõe-se a reconstruir o conceito de literatura
brasileira, trazendo a público temáticas que vão muito além de um
feminismo panfletário. Além de autoras já publicadas, o encontro será
mote para a publicação de antologias de poemas e contos, reunindo
autoras que usaram inicialmente as redes sociais para unir sua escrita
em publicações coletivas.
Distanciando-se dos simpósios, mesas e palestras habituais, o Mu-
lherio é de fato uma aglomeração de autoras, leitoras e promotoras da
literatura feminina. Logo, o seu formato também não se prende aos
moldes, sendo a programação do encontro construída coletivamente e
formada por rodas de diálogo temáticas. Trazendo a proposta de um
espaço autogestionado, autofinanciado e de fato, coletivo.
Por fim, cabe a todos compreender que o mês de outubro de 2017
será um marco para a autoria feminina em nosso país. Do soneto ao
slan, resistimos e junto às Adélias, Cecílias, Clarices e Carolinas, não
nos conformaremos apenas com as cadeiras empoeiradas do falocên-
trismo. Amanhã, estaremos nos livros das escolas dos seus filhos. Por-
que “ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável.
Eu sou.”
Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
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