Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 78
MADALENA ZACCARA
De sinhá prendada à artista visual:
os caminhos da mulher artista em Pernambuco.
Editora CEPE
Contatos para venda: madazaccara@gmail.com
P esquisa inédita coordenada pela
Prof.ª Doutora Madalena Zaccara, do
Departamento de Teoria da Arte da
UFPE, sobre as mulheres que se des-
tacaram no campo das artes visuais
em Pernambuco; desde Fedora do
Rego Monteiro (1889−1975) até a
contemporaneidade, passando pelas
principais figuras femininas do cená-
rio artístico do Estado. O livro é pre-
faciado por Ana Mae Barbosa, conhe-
cida arte-educadora e feminista bra-
sileira.
Comandado pela Prof.ª Doutora
Madalena Zaccara, o levantamento
contou ainda com as participações da
Mestra em Artes Visuais Prof.ª Mar-
luce Carvalho, da artista performer
Bárbara Collier e de Xavana Celes-
nah, mestrandas em Artes Visuais
pela UFPE, todas envolvidas com o
estudo dos efeitos da desigualdade
histórica de oportunidades no campo
das artes, determinada por questões
de gênero.
Faz-se um recorte histórico a par-
tir das primeiras décadas do século
XX, quando as diferenças entre ho-
mens e mulheres eram claramente
demarcadas por atitudes e comporta-
mentos. Da mulher (senhora, sinhá)
dos tempos da Primeira República,
esperava-se que obedecesse ao mari-
do e não tivesse iniciativa pública de
qualquer espécie. Polissêmico, o ter-
mo sinhá, descontextualizado da car-
ga negativa de um inglório passado
colonial, é aqui utilizado para trazer
à baila outro tipo de opressão: a sub-
missão da mulher, dona de casa, de
qualquer classe social, condenada a
desenvolver predicados artísticos
unicamente como prendas domésti-
cas, apenas em razão de sua condição
feminina. Nessa pesquisa, esse está-
gio é o ponto demarcatório do início
da árdua caminhada das mulheres
pioneiras da História da Arte Per-
nambucana, em busca do reconheci-
mento de seu status de artista plásti-
ca e paridade com os homens artis-
tas. Foram muitos obstáculos venci-
dos – e muitos ainda a transpor− no
vasto território das discriminações
sociais, religiosas, raciais, de gênero
etc. Neste último campo, o pródigo
universo feminino é ampliado para
abrigar a inserção da artista transe-
xual, que enfrenta dupla discrimina-
ção por extrapolar os limites dos pa-
drões clássicos de heterossexualida-
de ou binarismo de gênero.
Sem a pretensão de esgotar o ma-
peamento completo dessas mulheres
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artistas, num cenário cultural prolífi-
co como o de Pernambuco, o livro
resgata o perfil de um contingente
expressivo de mulheres, umas consa-
gradas, outras quase anônimas, que
lograram conquistar seu espaço exer-
citando diferentes linguagens artísti-
cas, na contramão de uma história da
arte hegemônica, branca e masculina.
O comprometimento da Professo-
ra Madalena Zaccara com as questões
de arte e de gênero ultrapassa fron-
teiras. Não apenas as geográficas,
mas também as epistemológicas, já
que intercala uma intensa vida aca-
dêmica dedicada ao ensino de Histó-
ria da Arte e investigação sobre ques-
tões de identidade de gênero, com a
participação em coletivos de artistas
e pesquisadores junto às comunida-
des vulneráveis no Brasil, em Mo-
çambique e Cabo Verde, na África
(vide projeto IDENTIDADES, da Fa-
culdade de Belas Artes da Universi-
dade do Porto). Em Pernambuco, a
comunidade quilombola de Concei-
ção das Crioulas, em Salgueiro – refe-
rência de autoestima e valorização da
identidade étnica e cultural do povo
negro – tem sido objeto de seu estu-
do e interesse.