Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 69
Hoje, essa mãe fez comentários jocosos sobre a filha em um post de uma das mães. Contava ela como a irmã mais
nova da garota aprendeu a provocar a mais velha, fazendo barulhos que irritam seus sentidos hipersensíveis.
“A irmã é a vida real bem na cara dela. Papel de irmão é infernizar”
Foi novamente confrontada, agora com palavras mais duras. Apelou para a ladainha sobre o quanto a vida é difí-
cil, o aluguel que vai vencer, o trabalho que não para, as irmãs que não entendem os “privilégios” da Aninha.
Essa mãe tem uma vida difícil, como muitas.
Mas a vida da Aninha é muito mais difícil que a vida da mãe, sabe? É isso que a mãe não consegue perceber. E
poderia ser muito, muito mais fácil. Se tivesse aceitação. Se tivesse respeito. Se tivesse interesse.
Existem muitas Aninhas por aí***, rotuladas de diversos nomes pejorativos, sem serem compreendidas nem por
seus colegas, nem por seus próprios familiares. Quando conseguem chegar à fase adulta, enchem os consultórios
dos psiquiatras com condições diversas como depressão, transtorno de ansiedade etc.
Hoje, eu só queria abraçar Aninha e dizer a ela que vai ficar tudo bem. Mas não vai, né? Nem toda história tem
um final feliz.
Um beijo, Aninha. É por você e pelas milhares de Aninhas desse Brasil que eu não me canso de escrever sobre
autismo. Se eu conseguir ajudar uma Aninha que seja, já me sentirei feliz.
* Esse nome foi inventado, claro. Mas a história em que o conto foi baseado, infelizmente, não.
** A intervenção precoce é muito importante em crianças com transtornos de desenvolvimento, como é o caso do
autismo. Vo cê pode perceber sinais desde o primeiro ano de vida, desde a forma como a criança se comunica/interage,
até a maneira como ela brinca. Se você desconfia que seu filho/sua filha seja autista, procure um especialista em sua
região (neuropediatra ou psiquiatra infantil).
***Para saber mais sobre autismo, acesse os sites: https://autismoemtraducao.com/
http://lagartavirapupa.com.br/ e http://mundoasperger.com.br/
Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
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