Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 67

Conto Aninha Por Adriana Torres Ferreira Ilustração: Vanessa Cardoso A ninha* era uma menina doce, alegre, cheia de vida e disposição. Para a maioria das pessoas, Aninha era uma menina feliz. Para a sua mãe, Aninha era uma menina chata. Chatinha, chatinha. Ela brincava de uma forma que as demais cri- anças não entendiam. Ela gostava de enfileirar e organizar os brinquedos, assim como arrumar o próprio quarto. Com cinco anos, Aninha era uma menina esquisita, dizia a mãe, cheia de manias. Não gostava de barulhos. Não suportava certas texturas de roupas e tecidos. Não tinha uma conversa bem estruturada e, em alguns momentos, falava algumas coisas sem muito sentido. Era uma “nerd”; quando cismava com algo, sabia tudo sobre aquele algo. E desenhava tão bem para a idade! Isso também era muito esquisito, no fim das contas. Ela é muito estranha, como as pessoas vão suportá-la? Questionava a mãe. Um dia, essa mãe viu outra mãe comentar em um post, numa rede social. A outra falava da seletividade alimentar do filho, de algo chamado transtorno do processamento sensorial. Ficou curiosa e começou a fazer perguntas. A ou- tra mãe falou sobre autismo. Apresentou para ela mais uma mãe. Ambas resolveram criar um grupo só para conver- sar com essa mãe e explicar que autismo não era uma doença; que a filha não era uma menina chata; que ser dife- rente era algo “normal”, mas que ignorar a diferença poderia causar sérios problemas. Foram meses e meses de muita informação, uma verdadeira dádiva em um mundo com tanta desinformação! Enquanto isso, a menina apresentava, a cada dia, mais indícios de ser uma criança autista, mas a mãe ainda não es- tava convencida. Levou-a em alguns médicos, mas sabe como é? Vida corrida de mãe, não tinha tempo para levar em terapia, tinha outros filhos, aquela ali estava virando uma privilegiada, tudo era pra ela, a mãe precisava trabalhar, não tinha tempo para essas coisas. A vida é assim, dizia. Ela é dura. Ela vai ter que aprender a viver nesse mundo. O grupo cresceu um pouco, entraram outras mães e até uma que, com o apoio do grupo, acabou sendo ela mesma diagnosticada autista. Mas, quando ela começou a ver aquela mãe que só reclamava da filha e de suas “esquisitices”, se sentiu muito mal. Ela não teve o diagnóstico precoce que poderia ter evitado tanto sofrimento em sua vida. Ela teve que aguentar a vida inteira os rótulos de chata, esquisita, excêntrica. Ela viu, nas palavras daquela mãe, o quanto aquela menina deveria estar sofrendo. Como ela mesma sofreu. Tentou alertar a mãe, assim como as demais participantes. Foi em vão. A mãe, confrontada, saiu do grupo, que continuou trocando valiosas informações sobre um assunto que é ainda muito mistificado pela mídia e pelos próprios “especialistas”. Mas ela voltou algumas vezes a contatar duas daquelas mães, que ficaram chocadas com os novos relatos. A me- nina estava piorando dia após dia. Em automutilação, batia a cabeça na parede, gritava, dizia coisas sem sentido, se arranhava. Na escola, na casa da avó, em casa. As mães tentaram, mais uma vez, alertá-la para a importância do diagnóstico, da terapia, da adaptação ambien- tal. Mas ela não queria escutar, só reclamar mesmo. Parecia uma criança que tinha recebido um brinquedo quebrado e não sabia como fazer para devolver. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 67