Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Página 64
S er transexual, e artista, é expressar os imensos con-
flitos que nos cercam com alguma forma de expressão.
Nesta em especial, utilizei o termo Bosque para designar
seu título, uma metáfora para o interior, fechar-se dentro
de si mesma. Em sua definição científica, o bosque é uma
denominação para certas formações florestais com árvo-
res, arbustos e outras plantas, quase mono específicas,
menores do que uma floresta. Nele, as copas das árvores
não formam uma cobertura contínua – isto é, as árvores
encontram-se mais afastas. Aproprio-me aqui, desse ver-
bete: O Bosque de Velicastelo é uma metáfora para o
meu inconsciente, onde essas imagens convergem entre
si e produzem para mim um sentido. Ou seja, o lugar que
abriga criaturas híbridas, onde os papéis de gênero tra-
dicionais estão invertidos por meio de ritos que sacrali-
zam o feminino.
A principal referência para esse trabalho foi o que
estava passando comigo mesma e com a configuração da
sociedade normativa em que vivemos, na qual ainda po-
demos observar hierarquizações e opressões de gênero.
Trago uma visão que inverte essa lógica para que fique
evidente a maneira pela qual, nós, mulheres somos opri-
midas. No Bosque , é possível ver outras imagens de cria-
turas não-binárias que desafiam as normas de gênero
impostas, evidenciando o caráter genealógico do que é
ser homem ou mulher.
Deixar as obras sem título foi uma opção que esti-
mulou os visitantes a contarem suas próprias narrativas;
comparecia à exposição como mediadora cultural pelo
menos uma vez por semana, para que pudesse discutir
com eles as suas narrativas em convergência com as mi-
nhas. Essa foi uma experiência enriquecedora, no senti-
do de saber a forma com a qual os trabalhos afetavam os
visitantes.
64 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
A exposição Bosque foi construída durante minha
transição de gênero. Durante esse período, me privei do
contato externo e fiz uma viagem interior em busca de
meu próprio ser; passando por alterações psicológicas e
corporais que expressei nas telas da exposição.
Nessas representações estão inscritas a transitorie-
dade do meu corpo. Uma ida, para algum lugar aonde eu
pudesse construir um corpo novo. Da forma que eu que-
ria.
O corpo, desta forma, no Bosque , sofre intervenções
subversivas quando retiro deles os seios, a vagina, o pê-
nis. Transformo-os em indivíduos que se pretendem não
estar inscritos em nada. Como que seres num nível pri-
mitivo do simbólico e do biológico, criaturas fantásticas
que não habitam nossa compreensão.
Como forma de deslocamento dessa naturalização do
feminino, esse trabalho mostra, numa representação pic-
tórica, um lado primitivo, feroz e ameaçador do que é
considerado feminino. Aqui considero os seios, não como
símbolos de um suposto destino materno, mas, sim, co-
mo armas que, ao serem expostas de forma sensual, num
corpo antropozoomórfico, têm como principal sentido a
construção de um corpo preparado para a luta. O corpo
de uma fera que ataca com garras afiadas, que ameaçam,
ao invés das mãos delicadas das vênus, retratadas nas
pinturas e esculturas ao longo da história. Uma criatura
preparada, não para o sagrado, mas, sim, para o profano.
Como artista, pensei o feminino dessa forma por-
que passava por um processo dentro de um contexto
social normativo e falocêntrico; onde dispositivos como
a família me obrigavam a aceitar o corpo com o qual eu
nasci. Tive ódio do meu corpo. Ódio de uma obrigação,
um teatro que não tinha mais sentido. Quis, mediante a
ritos de bruxaria (que são práticas históricas associadas
ao feminino), livrar-me desse corpo para renascer.