Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Seite 6
Conto
Solta
Por Anna Apolinário
Fotografia: Raquel Stanick
S egunda-feira, oito horas da matina. Há um laivo de ira em meu sorriso
obediente de bom dia. Náusea que tento adestrar. Finjo. Sou boa nisso. Horá-
rio de expediente. Eu quero gritar. A fúria me devora pelas bordas, vandaliza
meu corpo, agita minhas vísceras. Não consigo parar. Escrevo. Quero fazer
correr em meus poemas as vozes sanguíneas de todas as mulheres. Escrevo.
Para acordar meus vulcões. Minha gana nunca vai passar. Lava. Célula em
corrosão. Farpa que me atiça. Convulsão.
Dopada de cotidiano, caminho. Óculos escuros para tapar o tédio que ofus-
ca. Leio. Poemas obscenos de Hilda Hilst. Dentro do ônibus cruzando a Aveni-
da. Meio-dia. Leio e me excito. Febre. Eu quero o delírio.
Ouço aquele blues. “I Put a Spell on You”. Danço. A voz de Nina estilhaça o
silêncio e a minha sanidade. Terremoto neste pequeno cômodo. Ao redor só
há livros, janelas, e o meu riso.
Agora, desejo apenas que me vejas. Leia-me. Em toda a minha indecência.
Solta. Nua. Ardida. Insanável. Pele. Nervos. Boca. Rebeldia. Olhos tempestuo-
sos. E meus cabelos sordidamente vermelhos.
6 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017