Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Página 54
O Coletivo nasceu inspirado no evento Virada Cultu-
Se o patriarcado já é a maior opressão vivenciada
ral , realizado nos anos de 2012 e 2013, em Sousa. A pela mulher na sociedade, se colocar enquanto feminis-
ideia partiu de um grupo de pessoas que se reuniu em
uma oficina de produção cultural realizada pelo Centro
Cultural Banco do Nordeste e projetou a realização de
um evento, de caráter pontual, que, além da proposta
cultural, tratasse de temas que os inquietavam em suas
próprias vivências; entre esses, o feminismo.
A avaliação positiva do evento fez com que o grupo
desejasse dar caráter definitivo ao Coletivo Valha; não
mais atuar como evento esporádico. “Sentimos necessi-
dade, tanto individual quanto coletiva, de permanecer
discutindo sobre feminismos, movimento LGBT, racis-
mo e outras questões que abarcam diferentes formas de
opressão e de empoderamento de minorias”, afirma o
Coletivo que, pela proposta de horizontalidade do movi-
mento, prefere responder em conjunto.
O Coletivo, que hoje atua com dez colaboradoras fi-
xas, promove saraus pelas praças da cidade, realiza in-
tervenções e rodas de conversa – principalmente dentro
das escolas de nível médio e universidades, além de
produzirem material educativo.
Seguindo uma tendência cada vez mais forte, o Cole-
tivo Valha tem como objetivo final atuar dentro do femi-
nismo interseccional – que nada mais é do que buscar
compreender as intersecções ou recortes de opressão
ou de vivência, analisando de que maneira as estruturas
sociais de dominação e exploração atuam sobre as di-
versas mulheres na medida em que estas são favoreci-
das ou desfavorecidas dentro de um sistema. O próprio
coletivo explica esse conceito.
“Realizar o recorte de condição de gênero (cisgênera
ou transgênera), de etnia, de classe e de orientação se-
xual é reconhecer que as mulheres não sofrem todas
juntas as mesmas opressões; que as opressões não se
configuram somente no sistema patriarcal, tendo em
vista estes outros sistemas de opressão que envolvem
etnia, classe, peso, sexualidade e que transitam entre si”.
Mulheres são vítimas do machismo, mas nem todas so-
frem preconceito racial; algumas são vítimas da lesbofo-
bia ou gordofobia, enquanto outras não passam pelo
contexto da vulnerabilidade social. O Valha ainda afirma
que universalizar as vivências e colocar as mulheres no
mesmo patamar é perigoso e silenciador. “O reconheci-
mento do lugar que você ocupa na sociedade e dos pri-
vilégios que teve ao longo da vida, é também uma forma
de contribuir para o avanço do feminismo e da igualda-
de das mulheres. Para nosso Coletivo, reconhecer a im-
portância desses recortes facilita o contato com diferen-
tes mulheres, ao tempo em que poder dialogar entre
nossas diferenças nos leva para múltiplas realidades”
afirmam.
54 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
ta no interior da Paraíba torna a carga ainda mais pesa-
da. “A imagem do sertanejo é sempre a do “cabra ma-
cho”, do cenário extremamente machista que, ao mesmo
tempo, também mostra uma situação de subserviência
muito forte por parte da mulher”, afirma o Coletivo com
a consciência das dificuldades que envolvem construir
um coletivo num lugar onde o patriarcado é mais difícil
de fissurar; um desafio ainda maior para as integrantes
que nasceram e foram criadas nessas comunidades.
“Por conta do nosso círculo familiar e de amigos, sofre-
mos uma cobrança ainda mais forte e certa rejeição ao
questionar e apresentar as ideias feministas”, contam.
“Por conta do nosso círculo
familiar e de amigos, sofremos
uma cobrança ainda mais forte e
certa rejeição ao questionar e
apresentar as ideias feministas”.
Dentro do atual contexto social e político do país, o
coletivo considera que estamos vivendo um retrocesso
no que se refere aos direitos das mulheres, principal-
mente após a consolidação do golpe com a destituição
da primeira presidenta eleita. “Percebemos que o espa-
ço público ainda não foi totalmente conquistado pelas
mulheres e o golpe de 2016 apenas escancarou as pro-
fundas marcas do patriarcado no Brasil. A destituição da
ex-presidenta Dilma Rousseff, também demarcou o tér-
mino do diálogo entre o governo e os movimentos femi-
nistas. Prova disso é que, em menos de um mês de go-
vernabilidade, o presidente golpista Michel Temer redu-
ziu o Ministério das Mulheres à condição de mera secre-
taria”.
“É necessária a articulação política de movimentos,
associações, independente de serem formadas apenas
por mulheres ou não, organizações mistas. Esse mo-
mento exige uma construção de unidade na resistência.
É um desafio para o feminismo construir essas relações,
mas não secundarizar a sua luta. Pautar o contexto polí-
tico, econômico e social é fundamental para transformar
a vida das mulheres, não deixando as pautas que as in-
clui de lado”.