Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 40
Transfigurados em inspetores da
sexualidade alheia, em vigilantes de
alcova, os dirigentes paraibanos de
1930 transformam as cartas de
Anayde em objetos de escândalo e de
escárnio públicos. João Dantas tenta
evitar o holocausto moral que se
aproxima de sua companheira. Ho-
mem e intelectual, Dantas pressentia
o significado e os efeitos desse avilta-
mento na vida de uma mulher no
contexto da década de Trinta. Procu-
ra o presidente da Paraíba. Encontra-
o no Recife, onde lhe tira a vida. É
preso. Da Casa de Detenção, não sai-
ria com vida.
Preso João Dantas, Anayde acorre
ao Recife para ficar ao seu lado; visita
-o; cuida-lhe das roupas, abranda os
rigores do cárcere, até o momento
em que o advogado perrepista é en-
contrado morto, juntamente com um
cunhado que nada tinha a ver com os
distúrbios ocorridos. Anayde ingere
cianureto. Mas, não estaria só, nem
desamparada. Abrigada no Bom Pas-
tor do Recife, seria confortada, em
seus últimos momentos, pelos rituais
cristãos, o da confissão e o da extre-
ma-unção, e pelo amor das Irmãs
dessa Comunidade, conforme assegu-
ram as cartas afetuosas da Madre
superiora daquele asilo à mãe de
Anayde. Apesar do sofrimento, não
fora abandonada. Cumpriam-se, nes-
ses tempos de transfiguração do
amor em aventura trágica, as pala-
vras de Jesus ante uma mulher-
pecadora: "Pelo que te digo: que per-
doados lhe são seus muitos pecados,
porque amou muito" (Lucas, cap. 7; v.
47). Cumpria-se, nesses tempos de
cólera, a promessa de Jesus de que
não viera "a perder as almas, mas a
salvá-las" (Lucas, cap. 9; v. 56).
A morte de Anayde Beiriz não
consegue arrefecer a campanha difa-
matória deflagrada. Como os fariseus,
os aliancistas maldizem, em Anayde
Beiriz, a mulher que diverge do papel
subalterno a ela imposto; censuram
em Anayde, a mulher que discorda do
seu confinamento ao lar; escandali-
zam, em Anayde Beiriz, a mulher que
se opõe ao desperdício do intelecto
feminino, violentado num eterno la-
var, passar e cozinhar. Nessa conduta
farisaica, repetem, com brutalidade, a
censura de Marta à sua irmã, Maria,
esquecidos, decerto, da repreensão
de Jesus ao juízo de Marta, conforme
ressalta Lucas em seu evangelho.
E é por isso que estamos, todas e
todos, aqui irmanados para celebrar,
de Anayde Beiriz, a sua melhor parte,
até hoje, se não escondida, encoberta
pela perfídia e difamação. Não nos
move a ira ou o ódio, nem tampouco
o desejo de vingança. Pacíficos, so-
mos orientados, sim, por um profun-
do desejo de justiça. Não a justiça dos
fariseus, mas a justiça da qual fala
Mateus, a justiça que salva: "Porque
vos digo, que se a vossa justiça não
for maior e mais perfeita do que a
dos escribas, e a dos fariseus, não
entrareis no reino dos céus" (Mateus,
cap. 5; v. 20).
Queremos, pois, inaugurar em
nosso Estado um tempo novo, um
tempo de justiça, da justiça que liber-
ta a verdade, para que a verdade, as-
sim libertada, possa gerar o perdão e
o perdão possa, por fim, nos agraciar
com a paz.
40 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017