Ontem, pela primeira vez, a desmesurada dor que me tem consumido desde que
Ulisses partiu, deu-me tréguas. O regresso de Telémaco a casa e as palavras do
mendigo encheram o meu coração de uma renovada esperança. Ontem à noite, na
cama, não chorei por Ulisses, o meu dileto esposo. Pelo contrário, foi com um sorriso
na cara que esperei pela doçura do sono retemperador e que sonhei acordada com o
futuro ao lado do amor da minha vida.
Hoje, contudo, estou apreensiva. Temo que Euricleia esteja a ficar doente. Achei-a
estranha, quando hoje entrou no meu quarto para abrir as janelas. Disse-me que
estava assim, porque Argos, o pequeno cão de Ulisses, tinha aparecido morto, mas
não acreditei. Parece-me fora de si, como se estivesse a viver num sonho. Estará a
perder a razão? A idade não perdoa.
Espero que a morte do cão não seja um mau presságio para os jogos de logo à tarde.
Não! Tudo vai correr como espero. O cão morreu de velhice. Pobre animal!
Não sei o que pensar. Acabou agora mesmo o torneio que propus para definir quem
seria o meu novo marido. Como esperado, muita gente apareceu para assistir, o que me
deixou extremamente desconfortável.
Os pretendentes pareciam abutres a quererem fazer a sua fortuna e felicidade sobre a
minha desdita. Mas, como esperado, todos foram eliminados. Nenhum conseguiu
atingir o objetivo que defini, até que o inesperado aconteceu. O mendigo que ontem
esteve aqui em casa chegou-se à frente, dispôs-se a tentar a sua sorte, agarrou no arco e
conseguiu fazer o impossível!
Telémaco ficou esfusiante de alegria e anunciou-o logo como o meu futuro marido. Os
pretendentes incrédulos e cheios de indignação protestaram. Eu quase desmaiei de
terror. Vendo o meu estado, Telémaco pediu-me que me retirasse e que ficasse
encerrada no meu quarto até ele resolver a situação de grande conflito que estava criada.