A Teia de Penélope Penélope 1 | страница 22

Ontem, pela primeira vez, a desmesurada dor que me tem consumido desde que Ulisses partiu, deu-me tréguas. O regresso de Telémaco a casa e as palavras do mendigo encheram o meu coração de uma renovada esperança. Ontem à noite, na cama, não chorei por Ulisses, o meu dileto esposo. Pelo contrário, foi com um sorriso na cara que esperei pela doçura do sono retemperador e que sonhei acordada com o futuro ao lado do amor da minha vida. Hoje, contudo, estou apreensiva. Temo que Euricleia esteja a ficar doente. Achei-a estranha, quando hoje entrou no meu quarto para abrir as janelas. Disse-me que estava assim, porque Argos, o pequeno cão de Ulisses, tinha aparecido morto, mas não acreditei. Parece-me fora de si, como se estivesse a viver num sonho. Estará a perder a razão? A idade não perdoa. Espero que a morte do cão não seja um mau presságio para os jogos de logo à tarde. Não! Tudo vai correr como espero. O cão morreu de velhice. Pobre animal! Não sei o que pensar. Acabou agora mesmo o torneio que propus para definir quem seria o meu novo marido. Como esperado, muita gente apareceu para assistir, o que me deixou extremamente desconfortável. Os pretendentes pareciam abutres a quererem fazer a sua fortuna e felicidade sobre a minha desdita. Mas, como esperado, todos foram eliminados. Nenhum conseguiu atingir o objetivo que defini, até que o inesperado aconteceu. O mendigo que ontem esteve aqui em casa chegou-se à frente, dispôs-se a tentar a sua sorte, agarrou no arco e conseguiu fazer o impossível! Telémaco ficou esfusiante de alegria e anunciou-o logo como o meu futuro marido. Os pretendentes incrédulos e cheios de indignação protestaram. Eu quase desmaiei de terror. Vendo o meu estado, Telémaco pediu-me que me retirasse e que ficasse encerrada no meu quarto até ele resolver a situação de grande conflito que estava criada.