A democracia sob ataque | Seite 61

A política brasileira segundo Caio Prado Jr. 1
Raimundo Santos

Ainda hoje nos surpreende ver como Caio Prado Jr. analisa as conjunturas políticas dos governos de Juscelino Kubistchek e João Goulart, tomando por fato básico o desencontro entre o mundo político e a dinâmica da sociedade daqueles tempos. A narrativa caiopradiana desse breve período tem como ponto de partida o movimento de opinião pública pluralista que, desde a posse de JK no começo de 1956, havia despertado energias desenvolvimentistas e afirmado a ideia de reforma na esfera pública. Os seus protagonistas são os partidos políticos requeridos a fortalecer a vida democrática e suas instituições representativas.

As reflexões do historiador indicam as possibilidades das transformações do país, mas também mostram as debilidades da estrutura partidária, exibindo os impasses da política brasileira da qual dependia o seu encaminhamento. Analista de conjuntura com vistas postas no agir efetivo, ele chega a dirigir a todos os atores político-partidários da época um alerta sobre os perigos da situação de“ desequilíbrio catastrófico” que se formara em 1961 com a renúncia de Jânio Quadros. Chama particularmente a atenção para a“ falsa radicalização” das esquerdas que pensavam em saltos revolucionários naquele momento em que a instabilidade política crescia e paralisava a tentativa de realização das medidas reformistas então postas em discussão na cena pública.
1 Este texto retoma passagens do livro Caio Prado Junior na cultura política brasileira( Mauad / Faperj, Rio de Janeiro, 2001), no qual comentamos quatro artigos que Caio Prado escreveu para a Revista Brasiliense, entre os anos 1956-62.
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