Alternativa aos extremos
Fernando Luiz Abrucio
O
crescimento do populismo no mundo, geralmente de extrema-direita, deve ser criticado, mas, antes de tudo, deve ser compreendido como um fenômeno social. Ele é fruto da incapacidade de o capitalismo do século XXI em lidar com a desigualdade e com a integração de diversas parcelas da população. Obviamente que houve avanços nos últimos 30 anos, porém, eles foram insuficientes para evitar o surgimento de extremistas. É preciso fugir da dicotomia globalismo liberal versus nacionalismo populista se quisermos evitar o retorno de autoritarismos, como ocorreu entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.
Talvez a lição de outros momentos de crise do capitalismo possa servir como parâmetro para repensar a política atual. É interessante notar o que ocorreu em dois períodos paradigmáticos, o do pós-Comuna de Paris e o do final da Segunda Guerra Mundial. Em ambos, houve reformas importantes, destinadas a combater desigualdades. No primeiro deles, houve reformulação da legislação trabalhista, criação de aparatos previdenciários, construção das primeiras burocracias meritocrática-universalistas e o primeiro grande impulso à expansão do sufrágio universal. No segundo, a mudança foi muito mais profunda, com a montagem de Estados de Bem-Estar Social em quase toda a Europa e noutras partes do mundo.
Nas duas ocasiões, existiam várias forças reformistas, tanto à esquerda como entre certos círculos liberais – entre estes últimos basta lembrar o papel de Stuart Mill na Inglaterra e, posteriormente, de Woodrow Wilson e os chamados“ progressivistas” nos Estados Unidos. Mas foram os intitulados socialdemocratas os atores que mais se identificaram com o ideário de reformas. Se é verdade que seus papeis foram diferentes ao longo do tempo e nos vários lugares, nos casos mais bem-sucedidos foram capazes de estabelecer uma aliança pluriclassista que construiu um modelo político e econômico ancorado na tentativa de conciliar a produção da riqueza com a sua distribuição.
Esta visão socialdemocrata entrou em colapso nos países desenvolvidos na década de 1990. Houve uma tentativa de recons-
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