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Dilemas e desafios da política democrática
Marco Aurélio Nogueira
O momento político é complicado, de transição, pilotado por um governo repleto de ambiguidades e contradições, sobre o qual pesa uma crise profunda, a impopularidade e a descrença social. Ao menos por isso, chega a surpreender a dificuldade que o campo democrático – com seus políticos, seus intelectuais, seus partidos e suas organizações, que vão do liberalismo avançado às correntes socialdemocráticas mais ou menos radicais –, tem tido de melhorar seu desempenho e promover uma ação minimamente unitária destinada a pavimentar a reorganização da vida política, da governabilidade e das políticas públicas no Brasil.
O fenômeno não começou hoje e não é exclusividade nacional. Para onde quer que olhemos iremos nos deparar com um quadro semelhante. Democratas em guerra entre si, esquerdas se dividindo e se redividindo sem cessar, todos entregues à gestão da política miúda, cotidiana, e em constrangedor silêncio propositivo, assistindo de modo quase passivo à invasão da política pelo mercado e pela lógica do“ espetáculo”. Abandonam-se princípios e valores fundamentais, deixam-se de lado programas de formação política e de preparação de lideranças, menosprezam-se partidos e organizações. No horizonte, despontam a perda de qualidade da democracia, a consolidação do que tem sido chamado de“ pósdemocracia” e o encolhimento político e eleitoral das esquerdas, com a consequente redução das chances de formação de governos democráticos representativos, reformadores e eficazes.
O móvel deste universo tem sido a luta intestina, a resistência e a recusa, mais que a busca de hegemonia ou a contestação crítica e prática do capitalismo.
Pode-se tentar explicar o fenômeno valendo-se da subjetivação e apontando o dedo acusador para atores localizados, partidos e dirigentes políticos, responsáveis maiores pelo que haveria de“ traição” e fracasso. O melhor caminho, porém, é enfatizar a reestruturação em curso, tanto a do capitalismo que se reforça mediante novos procedimentos organizacionais e gerenciais e um firme processo de“ financeirização”, quanto a da própria sociedade moderna, que se reformula em decorrência das dinâmicas