A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 87

Para a superação da condição de vítima dos acordos” (2000, p. 469) que sejam capazes de preservar e pro- mover a vida humana e evitar a produção de vítimas. A participação e a presença são condições para a reconstru- ção da subjetividade desde a vítima. A vitimização se caracteriza pela exclusão, ou seja, pela impossibilidade de participação e de presença da vítima nos processos de definição das orientações de sua própria vida, nos processos de formação de acordos capa- zes de orientar a vida em sociedade. A ausência da vítima faci- lita para que não sejam necessárias alternativas que a integrem. Afastada da participação, fica impedida de propor alternativas que a promovam. A presença é uma das reinvindicações primei- ras e fundamentais do sujeito que, pelo reconhecimento, se apre- senta ao comum e, pela responsabilidade, passa a ser obrigado a participar e ao tempo em que a participação também passa a ser obrigação para os/as demais. A participação, como critério ético, permite que os sujeitos possam encontrar uma mediação estruturante dos processos de enfrentamento da vitimização e de construção de alternativas transformadoras. Sem presença e sem participação não há processo, nem transformação e, menos ainda, libertação, já que, acima de tudo, ela é obra das próprias vítimas em comunidade, em comunhão, em colaboração. O diálogo em comunhão com os outros – “já agora nin- guém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1975, p. 79) – é condição para a afirmação do sujeito. Ele é a principal mediação do processo de conscientiza- ção. Para Freire, ele se dá na relação horizontal, aquela na qual não subsiste qualquer tipo de opressão (1975a, p. 107). 7 A relação dialógica é relação que se faz pela palavra. Palavra que pronuncia o mundo como expressão autêntica. Assim, não há sujeito sem 7 Daí, diz Freire, a “razão por que não é possível o diálogo entre os que querem a pro- núncia do mundo e os que não a querem; entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito. É preciso primeiro que, os que assim se encontram negados no direito primordial de dizer a palavra, re- conquistem esse direito, proibindo que este assalto desumanizante continue (1975, p. 93). Mais adiante vai dizer: “Sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo. Daí que seja essencialmente tarefa de sujeitos e que não possa verificar-se na relação de dominação” (1975, p. 93). 86 de 244