A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 85
Para a superação da condição de vítima
cujas posições tendem a não ser éticas, porque a entendem como
devaneio idealista ou, no máximo, como piedade paternalista.
Nenhuma ética de senhores estará atenta a este “elementar”
que é a vida de cada um/a e de todos/as os/as sujeitos: a vida de
cada ser humano. Um ser humano faz sentido para a ética sim-
plesmente porque é um ser humano, não o contrário. Entender
esta verdade simples – não simplória – é tomar qualquer ser hu-
mano como vida que vale e é condição de todo valor e, se assim,
opor-se a toda e qualquer ação que não seja feita por esta razão,
de modo a agir para enfrentar todas as realidades que produzem
vítimas.
A segunda condição é a conscientização da vítima numa
práxis pedagógica e ético-política de participação dialógica
A conscientização é uma ação que pode ser feita como “prá-
xis autêntica” (Freire, 1975, p. 40), “práxis revolucionária” (1975,
p. 146). É, acima de tudo, práxis que “é reflexão e ação dos homens
sobre o mundo para transformá-lo” (1975, p. 40). Por isso, como
esclarece Fiori, a “conscientização não é apenas conhecimento ou
reconhecimento, mas opção, decisão, compromisso” (1975, p. 5),
ou seja, “alcança [as] últimas fronteiras do humano” (1975, p. 15).
Paulo Freire entende que é a conscientização 5 que possibi-
lita ao oprimido “inserir-se no processo histórico, como sujei-
5 Paulo Freire traçou algumas características do que viria a ser uma consciência crí-
tica, transitiva. Ela se caracterizaria: a) “pela profundidade na interpretação dos
problemas”; b) “pela substituição de explicações mágicas por princípios causais; c)
“por procurar testar os ‘achados’ e se dispor sempre a revisões”; d) “por despir-se ao
máximo de preconceitos na análise dos problemas e, na sua apreensão, esforçar-se
por evitar deformações”; e) “por negar a transferência da responsabilidade”; f) “pela
recusa a posições quietistas”; g) “por segurança na argumentação”; h) “pela prática
do diálogo e não da polêmica”; i) “pela receptividade ao novo, não apenas porque
novo e pela não-recusa ao velho, só porque velho, mas pela aceitação de ambos,
enquanto válidos”; e j) “por se inclinar sempre a arguições” (1975a, p. 61-62). Este
conjunto de qualidades só se realiza através de uma “educação dialogal e ativa, vol-
tada para a responsabilidade social e política” (1975a, p. 61).
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