A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Página 83
Para a superação da condição de vítima
resultado da ação libertadora da vítima: é obra da ação libertária
das vítimas, de quem superou a condição de vítima. Dussel dis-
tingue o sentido que dá ao ergon, à “obra peculiar do ser huma-
no”, o “bem humano”, daquele dado pelo viés aristotélico, para
quem ele consiste em viver conforme “o modo habitual autêntico
do ser” (2000, p. 569).
Na ética da libertação, a “‘obra’ [...] consiste em captar a rea-
lidade de todo sistema dado como a realização de um processo
efetuado a partir de uma vítima passada” (2000, p. 569), o que
significa dizer que, sem partir da vítima, não há como realizar,
sequer pensar, o bem. O bem é “um momento do próprio sujei-
to humano” (2000, p. 570). Este momento é definido por Dussel
como: “um modo de realidade pelo qual sua vida humana [da
vítima] encontra-se plenamente realizada segundo os pressupos-
tos da própria realidade humana” (2000, p. 570). Um sujeito, em
sentido pleno, é aquele/aquela cuja realidade de vida está plena-
mente realizada como vida humana: “plena reprodução 3 da vida
humana das vítimas” (2000, p. 570).
A vida se realiza como obra do “auto-re-conhecimento au-
to-re-sponsabilidade, autonomia” (grifo do autor), fruto da luta
“comunitária” [da comunidade das vítimas, dos movimentos so-
ciais] pela libertação. Diz Dussel: “a vítima de ontem pode fes-
tejar re-conhecida e re-sponsavelmente a corporalidade comu-
nitária da comunidade feliz” (2000, p. 570). O bem é feito por
uma “obra boa”, que é a “que realiza realmente a norma boa” 4
deseja que cada outro possa viver eticamente a sua singularidade dispondo das me-
diações que lhe sejam necessárias para realizar – nas melhores condições possíveis
– a sua humanidade, exercendo a sua própria liberdade. Igualmente, sob esta mesma
compreensão, a liberdade pública somente é exercida de modo ético quando promo-
ve a ética realização da liberdade privada” (2000, p. 179).
3 “Plena reprodução que significa que o faminto come, o nu se veste, o sem-teto habi-
ta, o analfabeto escreve, o sofredor se alegra, o oprimido é igual a todos, o que usa o
tempo para viver mal tem tempo livre; quando a vítima pode contemplar a beleza,
viver suas tradições, dançar seus valores... ser plenamente humano nos níveis supe-
riores das criações espirituais da humanidade” (Dussel, 2000, p. 570).
4 Dussel esclarece que a “norma boa é aquela que foi fundamentada segundo as exi-
gências da razão discursivo-moral em sua validade, contendo a verdade prática que
está regida pela exigência da produção, reprodução e desenvolvimento da vida hu-
mana de cada sujeito ético e a factibilidade dos requerimentos estratégicos práticos
e instrumentais tecnológicos do momento” (2000, p. 569).
82 de 244