A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 51

Desafeição e política:para outra gramática cidadã- Anotações de trabalho exemplo da corporação latinbarómetro a nível latino-americano, ao menos, e o relatório sobre a democracia do PNUD regional ano 2004, vd.cifras. 3.2. Daí para mais perto do cidadão de nossos países e do mundo, sendo que à hora de avaliar o trabalho da política e a democracia, encontramos coincidência em diferentes expressões de “mal-estar” 11 e insatisfação com respeito a suas atuais formas de expressão e prática. A respeito, a pesquisa da Corporação La- tinobarómetro indica que na América Latina o apoio cidadão à democracia passou de 60% em 2000, a 48% em 2001. E que a satisfação com o sistema democrático baixou de 37 a um 25% no mesmo período. Ao mesmo tempo, é possível observar diferentes maneiras através das quais hoje os cidadãos tentam recuperar um papel próprio no espaço público. 12 Como dizíamos no ponto anterior, talvez em boa medida isso tenha que ver com a gestão política, em que se transformou a política em ato, o qual termina induzindo os políticos ao abandono de programas, e o cidadão a uma apatía ou ceticismo. Sem pretensão de exaustividade podemos dizer que esse “mal-estar” tem a ver, entre outras coisas, com: a. Uma tendência a uma tecnocratização da política e do po- lítico, em que parece mandar o uniformismo de uma razão funcionalista/sistemica, acima do público emquanto ex- pressão/mediação do diálogo e participação cidadã; 11 O que tem sido detetado, por exemplo, em alguns trabalhos do grupo do PNUD relativo a Chile (ONU, 1998). 12 Por exemplo, com o descrédito de nomenclaturas, lideranças e partidos, os cida- dãos atendem e reúnem-se em torno de problemas específicos dando lugar a novas formas de associação e reivindicação, por exemplo, via a manifestação em prol da ecologia, dos direitos humanos, direitos da mulher, minorias étnicas, problemas do bairro, etc. Expressados às vezes em movimentos sociais, e no ressurgimeento do interesse pela sociedade civil, e o que se passou a chamar “terceiro sector”. Haber- mas afirma a esse respeito que, “…os novos conflitos desencadeiam-se não em torno de problemas de distribuição, senão em torno de questões relativas à gramática das formas de vida”. Como latinoamericanos, diríamos, nem tanto nem tão pouco. Para nós o tema da distribuição, isto é, da justiça social, continua sendo importantíssimo e impostergável (Habermas, 1987, p.556s). 50 de 244