A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 43

Desafeição e política:para outra gramática cidadã- Anotações de trabalho questionados, postos em dúvida quanto as suas possibilidades, esvaziados de referentes compartilhados. A dialética entre fatualidade e normatividade parece ser um sinal desses tempos no campo da vida comum, ou do que res- ta dela. A atual situação no domínio da política 1 revela-se, pelo menos, paradoxal. Ao mesmo tempo que a ideia democrática parecia abrir espaço em todo lugar, após a queda do Muro, no- vos muros levantaram-se, e apesar dessa conquista generalizada, os cidadãos percebem de outro modo o exercício do poder e a possibilidade democrática. Em muitos casos, como em América Latina, a ordem mais bem oscilante e sem adesões sólidas, como uma possibilidade dada para não ser modificada, senão muito pouco da sua própria realidade (citações do relatório PNUD de 2004). Ao mesmo tempo, enquanto caíam as barreiras para uma aceitação quase geral da democracia como sistema legítimo e expressivo da política, a dialética do processo globalizador, em termos de capitalismo generalizado, introduzia as sementes do descontentamento, da desafeição e da distância. 1.2. Esta situação paradoxal de liberdades recuperadas e ao mesmo tempo enquadradas em lógicas invisíveis difíceis de transgredir desde o seu exercício; da necessidade de recriar um quadro ético comum de convivência e, ao mesmo tempo, de di- ficuldade para ser assentado ou encontrado, faz que se desenhe na cena política e nas suas opções um certo destino encarnado em tendências centrífugas: por um lado, um pólo mais liberal, no qual, ao mesmo tempo reclama e reivindica liberdades, desenro- la-se envolvido na anomia que aflige os seus partidários. Por ou- tro lado, a frágua de uma resistência conservadora, refugiada em diferentes enclaves, nos quais se supõe que estão ainda a salvo as virtudes, os bons costumes, as tradições e os valores. A primeira vista, em ambos casos, liberais e comunitaristas repreendem-se um ao outro por gerar modos de vida com problemas de signi- ficação e sentido: em um caso, porque se renuncia propor um 1 Tanto na sua acepção referida as suas definições essenciais (o político), como no relacionado com as suas expressões mais sistêmicas institucionais (a política). 42 de 244