A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 37

Religião e tecnociência a partir de um texto de Jacques Derrida Não há a potência mecânica sem o “salvo”, o “incólume” que o inicia – de lá vem a força, o elã. Então mesmo que a tecno- ciência possa parecer se opor à imediaticidade da vida, há vida, e “fé na vida”, no coração da tecnociência – sua performance lhe vem de lá. Mas inversamente o paradoxo quer que não haja, jamais, a “vida pura”; para se preservar a vida deve se mecanizar, se repetir – se comprometer com a morte da técnica. Eis porque a potência do religioso enquanto ela tem parte vinculada com a repetição mecânica compromete necessariamente a performance do “sim” à vida pura com processos garantindo sua repetição e sua confir- mação – exemplarmente rituais e instituições – que num sentido a contradizem e portanto a tornam possível: é necessário calcular o incalculável, localizar o inassinalável, incorporar em institui- ções e dogmas... Assim os ritos e as preces inscrevem, incorpo- ram ou encarnam o “sim” inaugural, garantindo a repetibilidade mecânica, estabilizando uma forma determinada, limitada, que reúna a comunidade estável partilhando-os. Derrida aprofunda sua descrição da maneira seguinte: além do compromisso – que é também condição de possibilidade – da vida pura por sua instituição, sua mecanização, Derrida assinala que esta mecanização como preservação do puro, pode vir a se voltar contra o puro, o “incólume”; que à força de (se) preservar, este movimento pode daí vir a ser não mais que exclusão. Perseguindo a exploração do modelo da vida e/ou do viven- te, Derrida designa o movimento por onde o vivo se preserva em sua autonomia, em seu caráter de “incólume”, de “são e salvo”; por onde também ele “se indeniza”, restabelece sua incolumini- dade num movimento de imunidade. Um ser vivo se preserva em seu “exclusivo”, ele é governado por uma lógica de imuni- dade e mesmo de auto-imunidade. É então que Derrida evoca o caso das doenças ditas “auto-imunes”: acontece que num cor- po vivo as defesas imunitárias se desregulam e se voltam contra o organismo mesmo, que elas se coloquem não mais a rejeitar elementos estranhos ao corpo e o perturbando, a rejeitar corpos estranhos prestando atenção à integridade do corpo em sua au- 36 de 244