A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 228

Um regime de homens cínicos E essa é sempre perigosa. Quem age de maneira extremista nada diz do real, apenas de si mesmo. Para o extremista, o que ele diz é sempre uma tautologia, ao passo que os outros que se opõem a ele só resmungam contradições. Não admite a possibilidade de estar errado e que o outro tenha razão. Numa sociedade narcisis- ta, admitir o erro é cada vez mais raro... e as pessoas esqueceram que a tolerância, em relação à guerra, é um mal menor. Os democratas nutrem também, como os preguiçosos, os pessimistas, os céticos e os covardes, alguma suspeita para com o destempero dos dogmáticos. Os democratas representam tempe- ramentos e estados de humor caracterizados pela desconfiança. Nas democracias, não muito diferente desses temperamentos, e, não por acaso, a desconfiança esteve ligada à sofistica na Grécia clássica, entende-se que não há visões absolutas e nem verdades irrestritas. Sempre me causou estranhamento os que dizem de- fender ‘com unhas e dentes’ a democracia... Pouco incongruente que ajam assim, se a democracia é, por excelência, a necessidade do protocolo, dos ritos de formalidade a fim de evitar o desen- freado das paixões. Nada mais neurastênico que a democracia norte-americana! O imperialismo a tornou uma atitude autori- tária. Agem com extremismo em nome de um regime que pre- ga, a princípio, a racionalidade e o bom senso. Postura que só se acentuou com o macartismo e a guerra fria. Só assim se entende que haja, nesse sistema de ideias plácidas, tanto vigor. Que façam verter sangue e sejam odiados por metade do planeta. Conseguir transformar um regime baseado na tolerância numa prática de ódio é para poucos. Precisa-se de certa dose de cinismo, de hipo- crisia para cumprimentar ditadores e corruptos como defensores da liberdade. A ideia de haver governos se opõe em vários aspec- tos ao que seria uma verdadeira prática democrática. Na democracia, espera-se que se diminua a distância que separa a sociedade civil e as instâncias governamentais e que não se lute, como vem acontecendo no Ocidente, para se manter essa distância. Há algo de podre no reino da Dinamarca 3 ... incon- 3 Referente à fala do personagem Hamlet, da peça Hamlet, de William Shakespeare. 227 de 244