A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 200
A democracia banida
porações capitalistas. Assim não sou simplesmente contra o Estado,
mas creio que existe (no momento em que os limites do Estado e
da soberania do Estado-Nação se evidenciam e devem mesmo ser
lembrados) alguma coisa que se pode chamar de político, que, no
entanto, não se apoia mais na referência ao Estado-Nação e à cidada-
nia. (Derrida, 2001b).
Derrida defende também uma solidariedade que se estenda
a todos os seres vivos indiscriminadamente, o que do ponto de
vista político significa incluir não apenas e nem primeiramente
aqueles que são cidadãos, mas todos os indivíduos humanos e
não humanos. Significa também lutar por um direito inclusive
dos animais:
De minha parte, sou a favor – situo isso nos “Espectros de Marx”
– de uma solidariedade mundial que não seja simplesmente uma
solidariedade entre os cidadãos, mas que poderia ser também uma
solidariedade dos seres vivos, não constituindo justamente, em pri-
meiro lugar, uma política dos cidadãos. (Derrida, 2001b).
É a partir dessas considerações que Derrida aponta, por
exemplo, para a questão de uma hospitalidade por vir; a demo-
cracia por vir compreenderia a inclusão, não apenas de cidadãos,
mas de todo e qualquer indivíduo sem estatuto político, sem
identidade nacional, sem documento, pessoas deslocadas, como
aquelas imigradas à força em virtude das guerras. Com essa pers-
pectiva ele afirma:
Claro que quando falo de uma solidariedade internacional que não
seja simplesmente cosmopolítica, ou somente a aliança entre os ci-
dadãos do mundo, penso com certeza nessas pessoas. Tudo o que
procurei escrever sobre a hospitalidade, principalmente em “De
L’Hospitalité” e no livro “Adieu à Lévinas” diz respeito a esse pro-
blema. (Derrida, 2001b).
Além da ideia de hospitalidade para a qual Derrida aponta
suas restrições em função das condições que ela apresenta para
ser viabilizada nas democracias existentes, defendendo, então,
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