A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 195
A democracia banida
Assim, o Outro do Cabo possibilitaria pensar o cabo do ou-
tro que seria “a primeira condição de uma identidade ou de uma
identificação que não seja egocentrismo destruidor- de si e do
outro” (Derrida, 1995, p. 99).
Derrida vai ao texto de Paul Valéry, “Notas sobre a grandeza
e decadência da Europa” (1960) e observa que o autor descrevia
a Europa como um cabo: “[...] e, se esta descrição tinha a forma
de uma definição, é porque o conceito correspondia à fronteira.
É toda a história desta geografia, Valéry observa, olha, encara a
Europa, vê nela um rosto, uma persona, considera-a como um
chefe, isto é, como um cabo” (Derrida, 1995, p. 101-102). E en-
quanto parcela da humanidade seria um cabo bastante restrito
e reduzido, segundo Valéry. Na verdade, um local diminuto, um
“apêndice” ocidental da Ásia (Valéry apud Derrida, 1995, p. 102)
mas privilegiado e hegemônico quando se tratou de imprimir a
direção.
No texto sobre a grandeza e decadência da Europa supra-
citado, o poeta escritor resgata a palavra “hoje” que ele grafa em
maiúsculas, letras cap-itais: hoje, lembrando que o grande de-
safio “é o dia de hoje: “Pois bem! Que ides fazer? Que ides fazer
hoje?” (Derrida, 1995, p. 97).
O HOJE maiúsculo nos aponta para a discussão da demo-
cracia. Qual é o hoje da democracia? Ou do estado democrático
se ainda consideramos o nós ocidental?
Para minimamente darmos conta desse hoje, remetemos,
então, a uma discussão cara a Derrida sobre o ético- político,
binômio indissociável em seu pensamento e que dominou prin-
cipalmente os últimos anos de sua existência. Foram preocupa-
ções do autor com viés claramente ético-político, notadamente,
o apartheid, o eurocentrismo e o quadro político internacional, o
direito das minorais, o direito dos animais, o feminismo, a ques-
tão do estrangeiro, da hospitalidade, do dom e do perdão, entre
outros.
Derrida faz restrições à utilização dos termos democracia,
cidadania, ética, política, por estarem via de regra associados à
sociedade liberal logocêntrica (privilégio do logos) e defensora
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