A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 193
A democracia banida
as modificações da compreensão da ética nestes moldes para
a sociedade; a compreensão do “monstro inumano”, expressão
cunhada por Stirner em seu Único 1 e sua atualidade para a com-
preensão do homem contemporâneo bem como suas consequên-
cias para um mundo fora de ordem, ou como diria Shakespeare
em Hamlet, um mundo out of joint ( fora dos eixos). 2
Numa conferência pronunciada em Turim em 1990 em Co-
lóquio, tendo por presidente Gianni Vattimo, sobre “A identida-
de cultural europeia” e em 1991 publicada com o título L’Autre
Cap, O Outro Cabo, Memórias, respostas e responsabilidades 3
(1995), o pensador franco-argelino Jacques Derrida toma por
base “o velhíssimo motivo da identidade europeia” que segundo
ele “tem certamente a antiguidade venerável de um tema esgota-
do” (Derrida, 1995, p. 94). No entanto, ele ressalta que essa ques-
tão mantém “talvez um corpo ainda virgem” (1995, p. 94) o que
nos leva a apontar a sua atualidade e pertinência para a discussão
contemporânea aqui proposta.
Considero esta reflexão sobre a Europa apontada como es-
tando de certo modo em declínio, quer econômica, social ou cul-
turalmente, denominada por Derrida como O Outro Cabo, como
metáfora bastante pertinente para se falar do tema da democra-
cia.
Antes, porém, a peculiaridade da escolha desse título por
Derrida. Diz ele que um título já é sempre um cabo, assim como
o cabeçalho de um capítulo ou uma epígrafe (Derrida, 1995, p.
98). Um cabo significa a extremidade, a ponta, a cabeça, mas
pode dizer do fim, da finalidade, do polo, do telos (1995, p. 98).
É a direção, enfim. Um outro cabo pode sugerir uma nova dire-
1 Trata-se da única obra completa escrita por Max Stirner (1844), O Único e sua Pro-
priedade. Foi publicado pela primeira vez em 1845, mas com data de 1844 para des-
pistar a censura prussiana.
2 The time is out of joint, diz Hamlet ou seja, literalmente, o tempo está fora das juntas,
os tempos estão fora dos eixos, o mundo está disjunto, desconjuntado. E Hamlet
prossegue: “Oh, maldita sorte [...]/Porque nasci para colocá-lo em ordem!” (Cena IV,
ato I).
3 Traduzido para o português por Fernanda Bernardo da Universidade de Coimbra
(1995)
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