A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 171
Política e teoria social na concepção de Ortega y Gasset
Isso nos torna capazes de apreender o enunciado do fato so-
cial puro ou primário, segundo a concepção orteguiana: “o fato
social primário é a organização em dirigidos e diretores de um
montão humano” (Ortega y Gasset, 1957, p. 98) a ação recípro-
ca entre massa e minoria seleta. Ortega não se refere exclusiva
nem principalmente a diretores e dirigidos em sentido político
(“governantes” e “governados”). Não. O “político” é apenas uma
faceta do social. Essa ‘direção’ é algo elementar no âmbito da
realidade que chamamos “social”. É a infinitesimal partícula de
uma relação humana que produza um liame espontâneo em ge-
ral. Desse ponto de vista é tremendamente errado afirmar, como
virou moda de algum tempo para cá, que “tudo é política”.
Por outro lado, não é a família, observa o autor, a origem da
sociedade política, e sim o fato de se estar reunido para a realiza-
ção de um programa de vida, de um projeto comum. 3 A coexis-
tência nacional é um fenômeno essencialmente dinâmico e não
estático. Como a vida, trata-se de uma antecipação do futuro e de
algo que se intenta e se idealiza para adiante. Como, em essência,
a coexistência nacional é um projeto e se integra e consolida a
partir de um projeto ou programa vital, seu mecanismo intrín-
seco é o que Ortega chama “incorporação”, assim como sua de-
sarticulação é o “particularismo”. “A essência do particularismo
é que cada grupo deixa de sentir-se a si mesmo como parte e, em
consequência, deixa de compartilhar os sentimentos dos demais”
(Ortega y Gasset, 1987, p. 53); e prossegue: “Não lhe importam as
esperanças ou necessidades dos outros e não se solidarizará com
eles para auxiliá-los em seu afã” (1987, p. 53). A partir desta com-
preensão, dizer que a convivência nacional está em crise é o mes-
3 A visão da família como origem da sociedade política é o suposto do belo livro A
Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. Nela se combinam família e religião em
uma progressão crescente de círculos populacionais cada vez mais extensos. Maior
era o campo regional que o culto de um deus ocupava, mais ampla era a extensão
da unidade política. Assim, da família (gens) os gregos chamavam os membros da
gens “homogálaktes”, isto é, os que se alimentam do mesmo leite ‒, da gens à fratria,
da fratria à tribo, desta à cidade (urbe), da urbe às confederações e desta ao impé-
rio. Cada unidade estando em função da extensão da universalidade do culto, cul-
minando no Império Romano e no subsequente Estado cristão, correlato ao “Deus
único”.
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