A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 169
Política e teoria social na concepção de Ortega y Gasset
a ser algo. Isso não diz respeito a ninguém que não seja a própria
pessoa, não é nada social, não está ligado em si mesmo com o
sustento de ninguém, com recompensa nenhuma, não pode ser
substituído nem repassado a outro, como pode ser uma atividade
lucrativa qualquer ou uma posição social qualquer. Então o que
é “minha vida” nesse caso? Uma tarefa só minha. O que pode ser
uma “tarefa só minha”? O que eu tenho que fazer para vir a ser,
ou seja, dar corpo e realizar o que sou. Que eu não necessaria-
mente escolhi, que a sociedade não me deu nem forçosamente
me requer; que eu não cumpro por causa dos meus filhos, nem
para fazer bem a alguém, nem para me integrar na sociedade,
nem para ter recursos econômicos, nem para ter conforto, nem
para ter prazer, nem para ajudar esse ou aquele, nem para aju-
dar a mim mesmo ou fazer progredir um conjunto de bens, mas
apenas porque é o que, se eu não fizer, permanecerei sem identi-
dade, privado do destino que dá para mim a possibilidade de eu
ser eu mesmo, independentemente do contexto social em que me
encontro inserido; fico sem destino, perdido, boia à deriva, sem
ser, solto aí, sem ocupar-me de verdade, tendo que me acomodar
a manobras e disfarces que camuflam o vazio que sou. Portanto,
“minha vida” é propriamente o que não tenho, o que não está
já comigo, nada que possuo e que faz de mim por antecipação
algo já definido, pronto, e nessa medida “igual aos demais”, como
uma pedra ou um pardal. Ao contrário, é algo que está acima de
mim e da minha existência como instância fundamental, como
estrato originário de sentido; acima de mim enquanto me reco-
nheço como membro de uma sociedade. Não é coisa da minha
consciência nem nada que eu possa produzir; não é algo que seja
o que é e como é porque eu queira ou não queira (já por aí se
vê que não é nada social, subjetivo ou egóico). Portanto quando
uma pessoa diz “minha vida”, se a vida à qual ela se refere é o
que a vida em si mesma é ‒ um ser que me conclama a si desde e
por si mesmo e que por isso não se acha sob minha vontade ou
controle ‒, ela está se referindo simplesmente a um só e único
percurso obrigatório, que não é mais que o cumprimento de algo
que para a pessoa mesma que o realiza a transcende na qualidade
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