A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 164
Política e teoria social na concepção de Ortega y Gasset
hobbesiana: “o valor de um homem, tal como o de todas as ou-
tras coisas, é seu preço; isto é, tanto quanto é pago para o uso de
seu poder” (Hobbes, 1983, p. 54).
A teoria política e social de Ortega y Gasset tem como pano
de fundo esse novo mundo excepcionalmente estruturado cientí-
fica e politicamente instalado pelos poderes econômicos, que eri-
giram uma organização técnica sem precedentes; ela foi sugerida
pelo contexto real dessa nova Europa depositária das concepções
acerca do conhecimento e da vida humana que projetam uma
imagem do mundo conforme aos programas do industrialismo e
à ideia de um progresso material contínuo, o qual o século XIX
se empenhou por concretizar. Então o mundo passou a ser uma
espécie de preamar, de maré alta que, em vez de voltar a descer
em algum momento, ficou. Por toda parte tudo é avolumado e
colossal, e parece acontecer dentro de um neutro universo mo-
nocromático e espectral. De início, há um fator que sobressai,
um elemento dessa cena histórica que assume relevância crucial
para Ortega. A ascensão do nível histórico, ou o novo ‘patamar’
em que a vida normal transcorre em suas possibilidades, trou-
xe consigo um novo homem: o homem médio das sociedades
atuais, o qual é descrito por Ortega, sem eufemismos e rodeios,
em La Rebelión de las Massas, sua obra de maior repercussão. 2
2 A obra La Rebelión de las Massas, do pensador espanhol José Ortega y Gasset, possui
uma aura peculiaríssima. Quem a lê vai tendo uma impressão não muito distan-
te da que sentiria tivesse em mãos uma descrição redigida em campo de batalha e
ainda respingada de sangue e fuligem. Ela parece estar para tudo o que se escreveu,
mais ou menos formalmente a respeito, como aquilo que nos põe no meio de uma
enchente está para o que nos dá informações dela. Esse matiz tão peculiar (repito,
porque acho que é uma característica exclusiva desta obra e que perpassa seu imenso
valor) se deve a que, o que Ortega enfoca e descreve é, por assim dizer, o próprio
miolo, a ‘chave’ da história contemporânea desde a segunda metade do século XIX
até o presente; é a frequência em que essa história se sintoniza, o seu cenário e, de
certa maneira, a sua “substância”. Há obras eminentes, inclusive já clássicas, que
tocam no assunto, mas como momento ou parte de contextualização mais ampla
(ou mais restrita) ou de forma lateral, dando por suposto o sentido dos termos “mas-
sa” e “homem seleto” (“nobre”), sem, porém, enfocar e esclarecer precisamente
isso. Acontece com La Rebelión o que, em imaginação, figuraríamos como segue.
O arranha-céu está em chamas e se despedaçando. No saguão do vigésimo quinto
andar um hóspede recendendo a shampoo lê um manual de primeiros socorros a
uma pessoa semi-morta, aparentemente tranquilo, recostado a aconchegante sofá
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