A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | 页面 146
Sartre, democracia e liberdade
dade real para além da produção da vida, o marxismo desapa-
recerá; seu lugar será ocupado por uma filosofia da liberdade”
(Sartre, 2002, p. 39). A democracia (assim como a psicologia, a
sociologia e, mesmo a filosofia) nega a liberdade; ao estabelecer
o direito ao voto como limite da liberdade social, a democracia
faz do cidadão uma abelha que será comandada pelo feromônio
lei, e da sociedade uma colmeia onde cada abelha terá sua atri-
buição. A democracia faz crer, como se dá com as abelhas, que
elas necessitam de uma rainha enquanto, na verdade, são elas –
as operárias – quem criam e mantem a sua rainha. O temor que
acompanha todo abalo nas instituições democráticas repete o ato
instintivo de operárias que, mal sentem a falta de emissão do tal
feromônio (a rainha está velha, doente, ou morta), põem-se a ali-
mentar um grupo de casulos com geleia real e aguardam ansio-
samente que alguma daquelas larvas gere sua rainha (que, antes,
cuidará de matar todas suas possíveis rivais; ela é a única que não
tem seu ferrão ciliado, o que lhe faculta o direito dentre abelhas
de matar sem morrer). A democracia viverá de instituições fortes,
e tudo aquilo que as coloque em risco, como a liberdade, deve-
rá ser combatido; tudo que revele a igualdade entre os homens
– a menos que seja uma igualdade abstrata – deverá ser negado,
desqualificado, e o mais importante: é preciso fazer com que o
homem, tal qual se passa com a abelha, sinta necessidade de ser
governado de fora. Isso exige: primeiro, que ele não se saiba livre,
o que a entrada na cultura cuidará de lhe ensinar. Mas é preciso
mais: ele precisa acreditar que é livre. A democracia representa-
tiva cumpre esse papel, o que explica o porquê de Sartre não ser
democrata; ademais, expressa a sua coerência em jamais ter vo-
tado: a democracia repete, em um nível mais elaborado, a orga-
nização de uma colmeia; o homem não é um anjo, é verdade, mas
para Sartre ele é bem mais que uma abelha e seu mundo: trata-se
de filosofia da liberdade, do homem livre, e não de perpetuar a
disputa para decidir de antemão os detalhes organizacionais de
uma colmeia complexa.
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