A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 136
Sartre, democracia e liberdade
nasce do argumento forjado por Lukács para reafirmar a centra-
lização de decisões no horizonte comunista contra a liberdade;
ainda assim, Sartre é livre, ele escolhe, sem a pretensão de prever
o futuro, e declara sua simpatia ao socialismo. 8 Sartre também
não defende a proposta de que o proletariado tome o poder e pla-
nifique a economia, pois isso apenas parece possível à revelia da
liberdade (apesar do homem). A filosofia sartreana permanece
coerente e atual. Trata-se de uma ontologia fenomenológica que
descreve modos de ser no mundo (não se pretende, dogmatica-
mente, dizer o que é o Ser), todos ligados ao fenômeno humano
por excelência. Em Sartre, a fenomenologia não repete a sina de
toda filosofia a priori, ela parte do homem-no-mundo: isso jus-
tifica, apesar de Kant (que prova que o ser não é um predicado
real), apesar de Husserl (que renegou a filosofia da existência) e
apesar de Heidegger (que negligenciou a consciência existente),
que Sartre se volte para a situação:
Basta abrir os olhos e interrogar com toda ingenuidade a totalida-
de homem-no-mundo. Descrevendo-a, podemos responder a estas
duas perguntas: 1º) Qual é a relação sintética que chamamos de ser-
-no-mundo? 2º) Que devem ser o homem e o mundo para que seja
possível a relação entre eles? Na verdade, as duas perguntas invadem
8 Sartre foi um amigo de caminhada dos comunistas e da esquerda em geral, e inimigo
declarado do liberalismo; ainda que ele admita que a democracia seja historicamente
o modelo de governo que se mostrou menos ruim, o fato é que por ser uma democra-
cia parlamentar e, sobretudo, liberal, faz com que também ela mistifique a escolha
humana, servindo-se de artifícios para, em função de uma norma, fazer parecer que
a decisão de alguns represente a escolha de todos. Nesse sentido, a democracia serve
mais para separar os homens (a liberdade torna-se abstrata), impedindo sua solida-
riedade e, sobretudo, estabelecendo as regras do direito à opressão e exploração do
homem pelo homem. Nota-se aí, como indica Kowalska (2005), uma crítica frontal
ao capitalismo: Sartre pretende sim superá-lo, mas de sua filosofia decorre uma pos-
sibilidade humana inovadora em relação ao socialismo: a liberdade política (pedra
de toque do capitalismo) pode ser mantida sem que sejam mantidas a concorrência,
o livre mercado e, nem mesmo, seja necessário manter a propriedade. A pretensa
liberdade política, porque até agora exigiu liberdade econômica, redundou em injus-
tiça (capitalismo); a pretensa justiça revolucionária (o sistema de classes permaneceu
e permanece), porque abriu mão da liberdade política para promover a justiça, resiste
ainda hoje em ditaduras bizarras que se mantem pela força das armas. A filosofia da
liberdade não é capitalista ou socialista, mas erige-se como crítica de todo modelo
contrário à liberdade.
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