A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Page 134

Sartre, democracia e liberdade tanto, voltam-se contra a liberdade. É assim que Sartre, o homem histórico, foi julgado quando se posicionou frontalmente, sendo cidadão francês, contra toda forma de colonialismo e, inclusive, denunciou a prática militar francesa da tortura na Argélia; opon- do-se publicamente a De Gaulle, o político, presidente, libertador da França, herói da liberdade: isso rendeu a Sartre insultos de toda ordem, um clamor público por seu enforcamento e ele foi vítima de um atentado a bomba em seu apartamento; ao mesmo tempo, o libertador da França teria reconhecido, nos limites da democracia francesa, a liberdade do filósofo, ao declarar que não se prende Voltaire. A celeuma criada a respeito de sua atuação política chegou à academia; diferentemente de Merleau-Ponty que atuava como professor (servidor público), Sartre não foi um intelectual que se possa contar dentre os acadêmicos. E é assim que ele é lido, a partir do olhar já instrumentalizado que o ques- tiona de antemão; mas, felizmente, é também da academia que lhe chegam as mais sérias críticas, tanto no tocante à fenomeno- logia quanto à ontologia. Há ainda o Sartre fora da universidade, aquele das intervenções políticas, da fala cortante e escandalosa, que insiste que todo homem é livre, mesmo que nos meios acadê- micos ele apareça como um ultra-bolchevique (Merleau-Ponty, 1955, 1975 e 1984). Curiosamente, Sartre também não é bem-vin- do no lado marxista, e se Merleau-Ponty representa seu mais im- portante adversário acadêmico, ele terá em Lukács o portador da régua marxista de aceitação ou não dessa filosofia: Sartre aparece invariavelmente como o burguês de boa vontade, quase um de- fensor do liberalismo (Lukács, 1948). Heidegger, sem dispender tempo com Sartre, limita sua crítica ao humanismo (como se Sar- tre aí se resumisse) e traz ao meio das filosofias da existência um liberdade política, algo estranho até mesmo para os dias de hoje; esse grupo agiu na clandestinidade, a partir de quartos de hotel. Mas ainda em 1941 o filósofo, em nome do grupo, buscou o apoio de Mauraux e Gide, que por razões diversas recusaram-no e, assim, chegaram ao fim as ações do grupo. De fato, uma existência breve, mas, des- de então, Sartre assumirá a postura do escritor engajado – e suas obras serão, por sua ação individual, a denúncia de todo processo de cerceamento da liberdade e, claro, a proposição da liberdade como modelo alternativo de compreensão do homem, do mundo e da relação que os une (Cohen-Solal, 2005). 133 de 244