A democracia e seus desafios em tempos de crise 1ª Edição - Outubro 2017 | Página 132

Sartre, democracia e liberdade a existência livre (que Sartre pretende recuperar tanto no mar- xismo quanto no liberalismo) é simplesmente desconsiderada; a democracia (assim como a ditadura), porque não leva em conta a liberdade (ainda que dialética, ainda que histórica) e busca nou- tro lugar o modelo de mundo e o modelo de ser homem, acaba mistificando a existência e colocando toda possibilidade efetiva de mudança fora da alçada do indivíduo – isso é, em suma, má-fé social. Essa servidão ao conceito, essa supressão do homem em vista de uma ideia de homem, ou do mundo como ele é por mo- delos de como ele deve ser (sendo que tais modelos são retirados do passado) levou ao impasse entre infra e superestruturas nos anos sessenta do século passado; e justifica ainda hoje falar em filosofia da liberdade. Sartre não é um democrata, ele não é um capitalista, mas ele também não é um comunista ou marxista. “Seria estranho que em Nova York me acusem de antiamericanismo ao mesmo tem- po em que o Pravda, em Moscou, me acusa energicamente de ser um agente da propaganda americana” (Contat; Rybalka, 1970, p. 189). Ambos, capitalistas e socialistas (e sobremaneira fascistas) combatem do mesmo lado, contra Sartre; há razões para isso, que são sim históricas, datadas do século passado. Mas exatamente porque históricas e porque, para Sartre, o homem é sua história, ela concerne aos homens de todos os tempos (enquanto homens históricos). O mesmo pode ser dito de Aristóteles, Marx, Hegel ou qualquer outro homem que tenha proposto um modelo de ho- mem e de mundo, não importa a época ou o meio utilizado para fazê-lo; de modo direto, o fracasso do socialismo real e a derro- cada do capitalismo (que hoje se transmuta em sistema mundial, para subsistir) não são mais do que o resultado de escolhas livres, tomadas por homens livres. Foi a busca pela liberdade prometida e jamais alcançada que fez ruir o socialismo real, e não será por terpretados livremente pelo Partido Comunista Romeno, é claro). O resultado dessa experiência, relatado por Virgil Ieruca, foi que os poucos que saíram dali vivos não eram capazes senão de repetir slogans do PCR, e que a grande maioria se suicidou ainda nos primeiros anos de liberdade. Essa experiência durou cerca de quarenta e cinco anos, e reeducou (ou, ao menos fez uso dessa pedagogia sui generis) entre doze e dezoito mil seres humanos (Ieruca, 2013). 131 de 244